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Roberto Acioli de Oliveira

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30 de jun de 2015

Woody Strode e o Cinema Italiano


A  presença
de negros   na  Itália
beneficiou o cinema
da península

Na opinião de Alice Casalini, a carreira italiana de atores negros norte-americanos como Woody Strode (1914-1994) e Fred Williamson tem uma relação direta com o início da imigração de países africanos direcionada à Itália - apesar da crise petrolífera dos anos 1972-1973 (que por sua vez ocorre no contexto da Guerra Fria) provocarem uma suspensão da entrada de trabalhadores imigrantes, assim como também ocorreu em Portugal, Espanha, Grécia, França, Alemanha e Grã-Bretanha. De acordo com Casalini, a experiência destes dois atores permite um questionamento a respeito de uma diáspora entre Estados Unidos e Itália, do qual emergem três motivos de interesse: o reconhecimento por parte dos produtores italianos do valor agregado representado por tais contribuições; a ênfase em relação aos traços de virilidade e potência física que emerge da análise de seus papeis; uma reflexão em relação à função eminentemente comercial desses filmes (em grande parte confinados aos filões do faroeste, do filme policial e do filme de ação) e, consequentemente, sobre os efeitos que derivam daí em relação à imagem dos atores negros (1). (imagem acima, Strode como um rei do norte da África em Scipião, o Africano... General de César, 1971; abaixo, Por Ordem da Cosa Nostra, direção Fernando Di Leo 1972)


“A primeira vez que assisti Era Uma Vez no Oeste foi na Itália, em
italiano. [...] A cena com a água foi uma surpresa completa. E os closes,
não acreditava em meus olhos.  Nunca tive [...]  em Hollywood. Mesmo
em Os Profissionais,  tive  apenas  três.  [...]  Leone  me  proporcionou
um [...] de 5 minutos.  No final  [...] suspirei: ‘precisava muito disso’”

Woody Strode (2)

Foi o cineasta italiano Valerio Zurlini que procurou Woody Strode e ofereceu-lhe o papel de Maurice Lalubi, protagonista de seu filme de 1968, Sentado à Sua Direita (Seduto Alla Sua Destra, 1968), personagem inspirado em Patrice Lumumba, primeiro presidente da então recentemente independente República Democrática do Congo, na África equatorial. Strode disse que foi sua mais difícil interpretação, e sentiu-se deslocado em Cannes quando o filme foi selecionado para o Festival daquele ano. Admitiu que tivesse sorte por ter sido escolhido para aquele papel, mas chegou a dizer que tudo isso só aconteceu porque ele lutou contra Tarzan – uma alusão a sua aparição em três filmes do homem branco-macaco em 1953 e 1963, 1966-8. Decide ficar na Itália por três anos após o trabalho com Zurlini, onde trabalhou em papéis de variados tamanhos com cineastas como Sergio Leone, Luigi Magni e Enzo G. Castellari, respectivamente em Era uma Vez no Oeste (C'era una volta il West, 1968), Scipião, o Africano... General de César (Scipione detto anche l'africano, 1971) e Keoma (1976). Ao contrário de outros afro-americanos, Strode já chegou à Itália com uma carreira hollywoodiana consolidada, ainda que em boa medida constituída de papéis secundários - a carreira de Strode começou em 1939. Ele não chegou a aprender o idioma italiano, mas isso não o impediria de contracenar com Marcello Mastroianni e Vittorio Gassman em Scipião. (imagem abaixo, A Colina dos Homens Maus, 1969)


(...) Eu trouxe Woody Strode [para Era Uma Vez no Oeste]
por  causa  [do  cineasta  norte-americano]  John  Ford (...)

Sergio Leone (3)

Além do trabalho com Leone e Castellari, Strode também participaria de outros dois filmes do gênero faroeste espaguete, A Colina dos Homens Maus (La Collina degli Stivali, direção Giuseppe Colizzi, 1969) e Chuck Mull, o Homem da Vingança (Ciakmull, direção Enzo Barboni, 1970). Leone explicou que seu interesse em Strode surgiu em função da participação deste nos faroestes dirigidos pelo norte-americano John Ford – Strode aparece em Audazes e Malditos (Sergeant Rutledge, 1960), Terra Bruta (Two Rode Together, 1961) e O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, 1962). Strode participaria de três filmes do cineasta Fernando Di Leo, Por Ordem da Cosa Nostra (La Mala Ordina, 1972), Colpo in Canna (1975) e Missão Implacável (Razza Violenta, 1984). Contudo, Casalini resalta que a visibilidade de Strode, Williamson e outros atores negros norte-americanos na Itália (o ator Jho Jenkins trabalhou com Francesco Barilli) e na Europa não significa que exista menos racismo do que nos Estados Unidos (como parece acreditar Fred Williamson). De acordo com Casalini, infelizmente o estereótipo do negro musculoso exótico ainda é muito disseminado, tendo adentrado a esfera do cinema com o personagem Buck, em O Nascimento de Uma Nação (The Birth of a Nation) - do diretor norte-americano D. W. Griffith, que em 1915 realizou este épico focado na guerra civil americana, onde os negros eram apresentados como um “desvio antissocial” e Buck era o preto ameaçador, o predador violento, forte e sedento pela carne da donzela branca.


Leia também:

Meu Nome é Espaguete
O Exótico e o Cinema Italiano
Ettore Scola e o Milagre em Roma
O Cinema Político de Valerio Zurlini
Uma Judia sem Estrela Amarela
Aldo Moro e o Cinema Italiano
As Mulheres de Sergio Leone

Notas:

1. CASALINI, Alice. Presenze Nere nel Cinema degli Anni Settanta-Ottanta, tra Autorialità e Blaxploitation. In: De FRANCESCHI. Leonardo. L’Africa in Italia. Per una Controstoria Postcoloniale del Cinema Italiano. Roma: Aracne editrice, 2013. Pp. 126, 128-35.
2. FRAYLING, Christopher. Il Était Une Fois en Italie. Les Westerns de Sergio Leone. Paris: Éditions de La Martinière, 2005. Catálogo de exposição. P. 33.
3. SIMSOLO, Noël. Conversation Avec Sergio Leone. Paris: Cahiers du Cinéma, 3ª ed., 2006. P. 135.

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