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Roberto Acioli de Oliveira

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30 de jun. de 2019

Michelangelo Antonioni e a Sociedade Industrial


“Fazer um filme não é como escrever um romance. Flaubert 
disse certa vez que viver não era sua profissão;  sua  profissão
era escrever. Fazer um filme, pelo contrário, é viver  pelo menos
para  mim.  Enquanto estou gravando  um  filme,  minha  vida
pessoal não é interrompida;  de  fato,  ela se intensifica (...)” 

Michelangelo Antonioni, 1959 
(ANTONIONI, M. 1996: 15)


Tédio, incerteza, solidão, separação, vácuo, equívoco, padecimento, crise, lentidão dolorosa, monotonia, aborrecimento, alienação. Uma série de termos negativos é empregada para designar o cinema de Antonioni: Andrew Sarris chegou a cunhar um neologismo “Antonitédio” (1). Idolatrado por muitos e detestado por outros tantos, o cineasta realizou quatro filmes cuja importância praticamente eclipsou o restante de sua obra: A Aventura (L’avventura, 1960), A Noite (La Notte, 1961), O Eclipse (L’eclisse, 1962) e O Deserto Vermelho (Il Deserto Rosso, 1964). 

Os três primeiros foram agrupados pela crítica de cinema na chamada Trilogia da Incomunicabilidade; o quarto, seu primeiro filme colorido, costuma ser incorporado ao grupo, embora o cineasta italiano nunca tenha pensado em trilogia, muito menos numa tetralogia. Em 1979 ele declarou em entrevista:

“Eu nunca falei sobre uma trilogia, muito menos de alienação. Eu não estou dizendo que essas classificações não fazem sentido. Contudo, existem quatro, não três, de meus filmes que tocam no mesmo assunto. O Deserto Vermelho também aborda uma crise existencial” (Idem) (imagem acima, Zabriskie Point; abaixo, O Deserto Vermelho)

Estética da Ansiedade?



A hipótese do tema da alienação foi capturada pela crítica a partir de duas vertentes distintas (que muitas vezes se sobrepõem). Por um lado, a abordagem sociológica que associa enredos, cenários e personagens a uma crise existencial burguesa no período posterior à Segunda Guerra Mundial. Por outro lado, uma abordagem modernista que faz da alienação uma das principais preocupações de toda uma época cultural e artística (RASCAROLI, L.; RHODES, J. D. 2011: 7-9).

Sem ignorar as vertentes acima, Laura Rascaroli e John David Rhodes acreditam que seja possível ir além da mera nomeação das técnicas e procedimentos de filmagem que a crítica geralmente aceita como diretamente responsável pela visualização da alienação (uma câmera que evita a proximidade emocional, a figura humana descentrada, olhares direcionados para fora da tela, poucos diálogos, elipses narrativas, tomadas longas e movimentos lentos de câmera). Contudo, é verdade que em Antonioni a alienação também se relaciona com a estética (achatamento da superfície pictórica e disposição elaborada de corpos e objetos apontam para uma estética da ansiedade).

Embora admitam que o ensaio de Sigmund Freud sobre o estranho (unheimlich) (1919) constitua uma tentativa de conceitualizar a estética da ansiedade, Rascaroli e Rhodes não veem vantagens em psicanalisar os personagens de Antonioni. Seria mais produtivo trazer à baila uma experiência de Freud não muito distante dos personagens do cineasta italiano. Certa vez Freud relatou que estava caminhando pelas ruas desertas de uma cidade italiana desconhecida. Por mais que andasse acabava voltando para a mesma rua. Ele interpretou seus próprios sentimentos de estranheza desencadeados por essa experiência à luz da compulsão para repetir. Seus esforços para se separar do ambiente humano foram em vão. Freud admitiu que o fato de começar a ser notado por olhares insistentes o deixava apreensivo.

“Da mesma forma que Freud, repetidamente os personagens de Antonioni se encontram em espaços que suscitam sentimentos misteriosos. Eles caminham por ruas desertas pela manhã, acompanhados pelo som de seus passos no asfalto; ficam de pé na escuridão abstrata da noite, próximos a grandes mastros barulhentos [(nos dois casos, O Eclipse)]; estudam inquietos uma tempestade se aproximando no horizonte [(A Aventura)]; olham de uma sacada para os prédios anônimos ao redor e sentem calafrios quando percebem um homem numa janela aberta; acontece de caminharem para o meio de uma briga violenta e ameaçadora na periferia [(nos dois casos, A Noite)]; caminham desastradamente numa praça, tornando-se objeto de olhares sexualizados [(A Aventura)]; são compelidos a correr após ouvirem um grito vindo de um barco escondido na neblina [(O Deserto Vermelho)]. Em todos esses e incontáveis outros exemplos, os personagens nutrem o violento desejo de separar-se do ambiente que os contém e no qual (pelo qual?) eles se sentem observados. É sua presença incorporada que transforma os habitats urbanos e naturais em composições estranhas e misteriosas de edifícios, objetos e corpos. É o obstinado e sutil olhar dirigido a eles que os faz vibrar – como [Roland] Barthes colocou em sua carta a Antonioni – no espaço de um interstício. Na esfera afetiva produzida pelo familiar não familiar, o que não está em casa para Freud – naturalmente - é o ego humano, alienado de si mesmo, de sua própria experiência corpórea. Antonitédio pode bem ser a alienação do sujeito em relação a si mesmo. Mas é também e decididamente a forma distinta pela qual essa alienação é gerada cinematograficamente por formas distribuídas em espaços, por relacionamentos entre imagens e sons, por direções de olhares e trajetórias de corpos, pelo ritmo de presenças e vazios, e pelo olhar obstinado da câmera – os quais se combinam para materializar uma verdadeira estética da ansiedade, que revela para nós a estranheza de nossa casa (e nossa estranheza em relação a nosso mundo)” (Idem: 8-9) (imagem abaixo, O Eclipse)

Realismo Psicológico?



A incapacidade de se comunicar ou compreender o que se passa consigo mesmo, chegou a Antonioni desde o primeiro momento em que o cineasta olhou para o mundo através de uma câmera de filmar. Foi por ocasião de um documentário que ele pretendia realizar dentro de um manicômio. Antonioni foi recebido pelo diretor, que chegou a rolar no chão para mostrar como seus pacientes reagiam em certas situações. Mas o cineasta insistiu em filmar os próprios pacientes, ao que o diretor responde “okay, vamos tentar isso”:

“Então instalamos a câmera, aprontamos as luzes e colocamos os pacientes ao redor da sala em preparação para a primeira tomada. Tenho que dizer que eles foram muito prestativos ao seguir nossas instruções e extramente cuidadosos para não cometer nenhum engano. Eles nos ajudaram a arrumar as coisas e eu estava realmente muito surpreso pela eficiência e boa vontade deles. Finalmente, eu dei a ordem para ligarem as luzes. Estava um pouco nervoso e ansioso. Subitamente, a sala foi inundada com luzes e, por um instante, os pacientes ficaram absolutamente imóveis, como se estivessem petrificados. Eu nunca vi nos rostos de nenhum ator expressões de medo total como aquelas. A cena que se seguiu foi indescritível. Os pacientes começaram a gritar, contorcer e rolar no chão exatamente como o diretor havia demonstrado antes. Em pouco tempo a sala se tornou um inferno. Os pacientes tentaram desesperadamente ficar longe da luz como se estivessem sendo atacados por algum tipo de monstro pré-histórico. Os mesmos rostos que na calma anterior mantiveram a loucura dentro de laços humanos estavam agora amassados e devastados. Nessa hora nós fomos aqueles que ficaram petrificados com a visão. O camera-man não teve força para ligar a máquina, e nem eu dei a ordem. Foi o diretor do manicômio que gritou, ‘pare, desligue as luzes!’. Assim que a sala ficou em silêncio e contida, nós vimos um movimento débil e lento de corpos que pareciam estar em seus estágios finais de agonia” (ANTONIONI, M. 1996: 14-5)

De acordo com Antonioni, isso aconteceu antes da guerra e teria sido o momento em que, inconscientemente, começaram a falar sobre Neorrealismo. Considerado um dos traidores da estética neorrealista, Antonioni começa a realizar filmes cada vez mais “psicológicos”. A partir da década de 1950, ele e Roberto Rossellini (considerado pai do Neorrealismo, e que também sofreria a mesma crítica) passam a realizar filmes cada vez mais centrados no íntimo dos personagens. Para os dois cineastas não haveria contradição num filme de crítica social que ao mesmo tempo se concentra no interior dos personagens - especialmente no que diz respeito a evidenciar o descompasso entre o interior e o exterior do ser humano. Um realismo onde a realidade é sempre mais do que pode ser visto. 

A Polêmica de A Aventura



A Aventura recebeu muitas vaias da plateia quando foi apresentado no festival de Cannes em 1960. Ninguém entendeu aquele filme onde “não acontecia nada!”. No dia seguinte surge um manifesto a favor do filme, assinado por muitas personalidades do mundo do cinema. Desde então, A Aventura sempre aparece nas listas dos mais inovadores filmes de todos os tempos. 

O primeiro filme da trilogia se inicia com um cruzeiro marítimo nas ilhas Eólias, na costa italiana do Mar Tirreno (o filme iria se chamar A Ilha). Anna e Sandro, um casal em crise parte na companhia de sua amiga Cláudia e mais alguns amigos. Muitas são as oportunidades em que Sandro não reage ou simplesmente não compreende os questionamentos de Anna. De repente, Anna diz que quer ficar só! Embora admita não compreender o companheiro, ela se desespera com a ideia de perdê-lo. O grupo passeia pela ilha de Lisca Bianca quando sente falta de Anna. Ela não será encontrada, todos voltam para o continente e acabam se esquecendo dela. Inicialmente, Cláudia insiste em procurar, mas acaba esquecendo também (e se deixando seduzir por Sandro).

Na seqüência que leva ao final do filme, Cláudia e Sandro, já como um casal, estão num hotel (Anna já nem é mais uma lembrança) quando, após uma diferença de opinião (Cláudia não quis transar com Sandro), ela prefere dormir enquanto ele vai para uma festa. No dia seguinte, Cláudia o encontra aos beijos com outra mulher. Apesar dessa demonstração de machismo e desinteresse (ou esquecimento) de Sandro, Cláudia releva – porque ela sabe que também possui limitações. De acordo com Aldo Tassone, que reproduz a conclusão do próprio Antonioni, esse final aberto de A Aventura sugere que a compreensão mútua e a tolerância (que não significa resignação) são os últimos recursos para escapar à “catástrofe” (TASSONE, Aldo. 2007: 218). Claudia se torna mulher quando sua rotina sentimental a leva a tomar consciência de como tudo é provisório.

No debate que se seguiu à projeção desse filme durante uma retrospectiva no Centro Sperimentale di Cinematografia de Roma em 1961, perguntaram a Antonioni qual era afinal a mensagem de A Aventura. Depois de passar toda uma noite discutindo, alguns sugeriram que o final indicava uma concepção pascaliana da vida (a solidão humana, fracasso perpétuo, humilhação, a vã tentativa de escapar de um mundo sem saída), enquanto outros vislumbraram uma concepção da vida mais otimista do que nos filmes anteriores do cineasta. Antonioni resolveu reler para a platéia a mesma declaração que fez por ocasião da polêmica apresentação do filme no festival de Cannes no ano anterior:

“Hoje o mundo está ameaçado por uma cisão extremamente séria entre uma ciência que está total e conscientemente projetada para o futuro e uma moral rígida e estereotipada, que todos nós reconhecemos como tal, mas ainda assim a sustentamos com covardia ou pura preguiça. Onde esta cisão é mais evidente? Quais são as suas áreas mais óbvias, mais sensíveis, ou, poderíamos mesmo dizer, mais dolorosas? Considere o homem da Renascença, seu sentimento de alegria, sua plenitude, suas atividades variadas. Eram homens de grande magnitude, tecnicamente capazes e ao mesmo tempo artisticamente criativos, capazes de sentir seu próprio sentimento de dignidade, seu próprio sentido de importância enquanto seres humanos, a plenitude ptolomaica do homem. Então o homem descobriu que este mundo era copernicano, um mundo extremamente limitado, num universo desconhecido. E hoje um novo homem está nascendo, tomado por todos os medos e terrores e balbucios associados com um período de gestação. E o que é ainda mais sério, esse novo homem imediatamente se encontra sobrecarregado com uma pesada bagagem de traços emocionais que não pode exatamente ser chamada de velha ou fora de moda, mas sim inadequada e insuficiente. Eles nos condicionam sem nos oferecer nenhuma ajuda, criam problemas sem oferecer alguma possível solução. E, no entanto, parece que o homem não vai se livrar dessa bagagem. Ele reage, ele ama, ele odeia, ele sofre sob a influência de forças morais e mitos que hoje, quando estamos no limiar de atingir a lua, não deveriam ser os mesmos que prevaleceram no tempo de Homero. No entanto, são. (...)”




Neste trecho Antonioni insiste no fato de que nosso interesse e deslumbre pela evolução está em contradição com nossa resistência em abandonar uma moral ultrapassada. No fundo, não queremos mudar junto com a sociedade. Contudo, ao contrário do que possa parecer, especialmente em A Noite e O Deserto Vermelho, Antonioni não está condenando o mundo moderno, apenas nossa falta de habilidade em adaptar nossas emoções e moral a um mundo que mudou. Na cena final de A Aventura restaria apenas uma compaixão mútua, sem isso não existe mais nada. Seguindo na leitura de sua declaração, Antonioni enfatiza o quanto isso parece pouco do ponto de vista existencial:

“(...) O homem é rápido para se livrar de seus equívocos e erros tecnológicos e científicos. De fato, a ciência nunca foi tão humilde e pouco dogmática quanto hoje. Ao passo que nossas atitudes morais são governadas por um sentido de absoluto embrutecimento. (...)” 

Na opinião de Peter Brunette, o desaparecimento de Anna não tem nada de “mistério do outro mundo”, apenas evidencia o comportamento ambíguo do ser humano em relação à realidade. O esquecimento em relação à Anna produz uma zona de invisibilidade que destrói nosso sonho de visibilidade total. Os críticos de cinema da época se ressentiram da ausência de uma pista (supondo que estivéssemos falando “apenas” de um filme de mistério), daí a tendência a relacionar os filmes de Antonioni apenas com a temática da angústia e da alienação. O cineasta italiano não se satisfazia com correspondências simbólicas óbvias, optando por eliminar uma cena se acreditasse que ela seria tomada como símbolo do final da relação de Anna e Sandro (BRUNETTE, P. 1998: 31-2, 89). E Antonioni continua sua leitura:

“(...) Em anos recentes, examinamos essas atitudes morais muito cuidadosamente, as dissecamos e analisamos até a exaustão. Fomos capazes de tudo isso, mas não de encontrarmos novas. Não fomos capazes de fazer qualquer progresso na direção da solução deste problema, desta sempre crescente cisão entre o homem moral e o científico, uma cisão que está se tornando cada vez mais séria e acentuada. Naturalmente, eu não pretendo encontrar a solução. (...)”




Os filmes de Antonioni também abordam as dificuldades da relação entre os sexos. Ainda que em A Aventura todos os casamentos sejam um inferno, Brunette considera muita simplificação afirmar que a temática de Antonioni seja primordialmente existencial e metafísica: os sexos seriam inimigos naturais, não existe possibilidade de compreensão mútua, o amor também traz infelicidade (também não se trata “apenas” de um filme sobre a guerra dos sexos). Na opinião de Brunette, Antonioni empreende explorações filosóficas mais amplas enquanto apresenta uma crítica social e cultural da sociedade contemporânea. E segue Antonioni sua leitura:

“(...) Eu não sou um moralista e meu filme não é nem denúncia nem sermão. É uma história contada através de imagens, por meio da qual, eu espero, seria possível perceber, não o nascimento de uma atitude equivocada, mas a maneira pela qual atitudes e sentimentos são mal interpretados hoje. Porque, eu repito, os padrões morais atuais em função dos quais vivemos, esses mitos, essas convenções, são velhas e obsoletas. Todos nós sabemos que são, e ainda assim às honramos. (...)”

Antonioni disse que percebeu instabilidade e fragilidade nas relações entre os homens e as mulheres de seu círculo, uma situação que perpassa nossa época como um todo: instabilidade política, moral, social e física. Uma instabilidade que influencia nossos sentimentos e psicologia. E o que diz a declaração de Antonioni a respeito de como lidar com isso?

“(...) Por que [ainda honramos convenções obsoletas]? A conclusão a que chegam os protagonistas em meu filme não é uma de sentimentalismo. No mínimo, ao que eles finalmente chegam é um sentimento de pena um pelo outro. Você pode dizer que isso também não é nada de novo. Contudo, o que mais resta se não alcançarmos pelo menos isso? Porque você imagina que o erotismo é tão prevalente em nossa literatura hoje, nossos shows teatrais, e em toda parte? Isso é o sintoma da doença emocional de nosso tempo. Porém, essa preocupação com o erótico não teria se tornado obsessiva se Eros estivesse saudável. Quer dizer, se fosse mantido nas dimensões humanas. Mas Eros está doente, inquieto, algo o está incomodando. E sempre que algo o incomoda o homem reage. Mas reage mal, apenas por impulso erótico, e fica infeliz. (...)”




Antonioni definiu os personagens de A Aventura como homens e mulheres anormais procurando viver suas vidas e seus amores normalmente, as dificuldades são tão profundas que a catástrofe nos relacionamentos é iminente. Até aí nada de novo no horizonte existencial do casal moderno de qualquer orientação sexual. Antonioni disse que não pretendeu fazer nem crítica nem sermão, apenas realizar uma narrativa em imagens que procura compreender a confusão gerada por sentimentos equivocados. Comentando a respeito da Doença de Eros, Antonioni aprofundou, em plena revolução sexual dos anos 1960, sua crítica a respeito do erotismo:

“(...) A catástrofe de A Aventura é uma impulsão erótica desse gênero: infeliz, mesquinha e inútil. A conclusão a que chegam meus personagens não é a anarquia sentimental; eles podem na pior das hipóteses chegar a uma forma de compreensão mútua. O que nos resta a fazer se nós não conseguimos ser diferentes?” (TASSONE, A. 2007: 209-10)

A Aventura também aponta falhas da sociedade italiana fruto do Milagre Econômico do pós-guerra. Apenas Cláudia, que não é nem da alta burguesia e nem da aristocracia, parece pensar em outras coisas além do dinheiro. Anna é jovem, moderna e filha de um milionário que disputa a atenção dela com Sandro. O dinheiro corrompe os personagens masculinos, e o sexo é mais uma competição - as mulheres são troféus e o dinheiro é parte da disputa (2). As pessoas da alta burguesia e da aristocracia estão entediadas e são entediantes. Assim como Federico Fellini já havia mostrado em A Doce Vida (La Dolce Vita, 1960), Antonioni sabe como uma festa decadente pode atingir o espectador. Talvez por esse motivo tenha feito de uma festa o ambiente de A Noite

Como vimos, Antonioni se refere também a uma Doença de Eros: quando o erotismo é utilizado para preencher o vazio da falta de sentimentos. Para esses personagens, homens vorazes e mulheres entediadas, a sexualidade é uma sensação superficial e um jogo de poder. Cláudia tem um caráter mais íntegro, escapando da vulgaridade. Muito representativa é a cena em que ela chama por alguém numa cidade deserta, mas somente seu eco responde – a imagem perfeita do solipsismo. Noutro momento da mesma seqüência, quando Sandro acha que viu outra cidade ao longe, Cláudia explica que é um cemitério (BRUNETTE, P. 1998: 46-8). Sejam ou não metáforas, as duas cenas são bastante eloquentes.




A crítica sempre questionou o alcance da crônica da vida italiana na obra de Antonioni, considerada limitada porque ele só se refere à classe média/burguesia. O cineasta admitiu só falar da classe que conhece - contudo, seus filmes até O Grito (Il Grido, 1957) focalizam gente pobre. Além disso, temos o comentário de Vitória em O Eclipse, justificando a agonia da mãe em relação à bolsa de valores porque ela veio dos bolsões de pobreza da Itália do pós-guerra. Em 1957, antes de utilizar expressões como “doença dos sentimentos” para caracterizar A Aventura, Antonioni declarou que o tema do filme era “o futuro da burguesia” - o que incluía a mistura de classes sociais (BENCI, J. 2011: 63n135). E assim, finalmente, Antonioni encerrou sua leitura da declaração que havia feito em Cannes:

“(...) A tragédia em A Aventura decorre diretamente de um impulso erótico deste tipo – infeliz, desgraçado, fútil. Estar criticamente consciente da vulgaridade e futilidade de tal impulso erótico esmagador, como no caso da protagonista de A Aventura, não é suficiente ou não serve a nenhum propósito. E aqui assistimos ao desmoronamento de um mito, que proclama ser suficiente para nós saber, estar criticamente conscientes de nós mesmos, nos analisarmos a nós mesmos em todas as nossas complexidades e cada faceta de nossa personalidade. O ponto da questão é que tal exame não é suficiente. É apenas uma etapa preliminar. Diariamente, cada encontro emocional faz surgir uma nova aventura. Contudo, apesar de sabermos que os antigos códigos de moralidade são decrépitos e não mais defensáveis persistimos, com uma perversidade que eu poderia definir de forma irônica como patética, em nos manter leiais a eles. Por conseguinte, o homem moral que não teme o desconhecido científico, está hoje com medo do desconhecido moral. Partindo deste ponto de medo e frustração, sua aventura só pode terminar num beco sem saída” (ANTONIONI, M. 1996: 32-4)

Em 1976 Antonioni faria mais uma tentativa para esclarecer o público ao comentar sobre uma cena de A Aventura que foi cortada da versão final:

“Depois de assistir ao filme, todo mundo imagina: O que aconteceu com Anna? Existe uma cena no roteiro – que posteriormente foi cortada, eu não me lembro porque – na qual Cláudia, a amiga de Anna, está com outros amigos na ilha. Eles estão fazendo todo tipo de especulações possíveis sobre o desaparecimento da garota. Mas não existem respostas. Após um momento de silêncio alguém diz: ‘Talvez ela simplesmente tenha se afogado’. Cláudia se vira bruscamente para ele: ‘Simplesmente?’ Todos se olham entre si, desanimados. É isso. Esse desanimo é o sentido do filme” (Idem: 81)

A Noite da Aventura do Eclipse



Certa vez o cineasta russo Andrei Tarkovski descreveu a sequência final de A Noite “como o abraço de duas pessoas que estão se afogando” (BRUNETTE, P.1998. 72). Giovanni é escritor e vive uma relação complicada com Lídia. Logo irão se encontrar com Valentina, outra peça no tabuleiro de xadrez de suas vidas - Lídia vê quando Giovanni beija Valentina na festa na mansão do pai desta. Como todo personagem masculino dos filmes de Antonioni, Giovanni confessa para Valentina que está em crise, mas afirma que sua condição é passageira. Além disso, todos os “homens de Antonioni” são machistas, imaturos e traídos por suas obsessões sexuais. Ao contrário da relação que se estabelece entre Lídia e Valentina, onde não existe competição - essa solidariedade entre elas é mais forte do que entre as personagens femininas de A Aventura. No final da festa e do filme, já é manhã quando Lídia e Giovanni finalmente iniciam um diálogo. Antonioni resumiu o desfecho indicando a lógica do final aberto:

“(...) Aquela conversa, que na verdade é um solilóquio, um monólogo da esposa, é um tipo de sumário do filme para esclarecer o significado real do que aconteceu. A mulher ainda deseja discutir, analisar, examinar as razões do fracasso de seu casamento. Mas ela é impedida de fazer isso pela recusa de seu marido em admitir seu fracasso, sua negação, sua falta de habilidade em lembrar-se, ou má vontade para lembrar-se, sua recusa em considerar as coisas, sua incapacidade de encontrar qualquer base para um novo começo a partir de uma análise lúcida da situação como ela se apresenta. Ao invés disso, ele procura se refugiar numa tentativa desesperada de fazer contato físico. É por causa dessa paralisação que nós não sabemos a que possível solução eles chegariam” (Idem: 39)

Antecipando a sequência final de O Eclipse, A Noite começa mostrando a vida urbana de Milão já durante os créditos iniciais. Uma selva de pedra e concreto, retrato do triunfo material alcançado pelo Milagre Econômico italiano do pós-guerra. Mas Brunette não acredita que tais imagens sejam uma denúncia do estado de alienação na vida moderna. Antonioni estaria apenas mostrando essa vida. Antonioni resume as diferenças entre A Aventura e A Noite:




“Em A Noite, os protagonistas vão um pouco além. Em A Aventura, eles se comunicam apenas através desse mútuo sentimento de piedade; eles não se falam. Em A Noite, contudo, eles conversam, comunicam livremente, estão inteiramente conscientes do que está acontecendo a seu relacionamento. Mas o resultado é o mesmo, não há diferença. O homem se torna hipócrita, ele se recusa a continuar com a conversa porque sabe muito bem que, se expressar abertamente seus sentimentos naquele momento, tudo estará acabado. Entretanto, mesmo esta atitude indica de sua parte um desejo em manter o relacionamento, para que mais tarde surja o lado mais otimista desta situação” (ANTONIONI, M. 1996: 35)

Em O Eclipse, Vitória é mais adulta do que Cláudia (A Aventura), e menos problemática do que Valentina (A Noite); como elas, vive frustrada com seus sentimentos. Vitória também é o oposto de Giuliana (O Deserto Vermelho), não existe nela nenhum traço de neurose. Ela é calma, uma mulher sensata que pensa no que está fazendo. Em O Eclipse, explicou Antonioni, a crise tem a ver com as emoções; em O Deserto Vermelho, as emoções são dadas como certas (ANTONIONI, M. 1996: 289; TASSONE, A. 2007: 241).

Assim como os outros personagens masculinos em A Aventura e A Noite, Piero, o par de Vitória, é muito carnal e tem pouco talento para sentimentos reais. Corretor da Bolsa com seus valores mercenários, sua falta de interesse nos seres humanos e seu sexismo. Interessado pelos seios de Vitória, ele tem uma caneta com a imagem de mulher que fica nua quando colocada na posição de escrita. A Bolsa de Valores (onde Piero e a mãe de Vitória se entendem muito bem) constitui um comentário sobre o caráter abstrato que a vida adquiriu. Depois de presenciar uma quebra da Bolsa, Vitória pergunta a Piero para onde todo o dinheiro vai quando algo assim acontece, mas ele não sabe responder (BRUNETTE, P. 1998: 82-3).

Neurose do Deserto



Talvez nenhum outro filme realizado por Antonioni ilustre tão bem os limites do mal estar humano quanto O Deserto Vermelho. Aparentemente, a incapacidade de comunicar seus sentimentos (ou a falta deles) faz de Giuliana o ápice de um modelo que se iniciou com Cláudia em A Aventura. Muitos críticos ainda classificam a Trilogia da Incomunicabilidade como uma tetralogia. Contudo, na época do lançamento de O Deserto Vermelho o próprio Antonioni esclareceu que o assunto é outro:

“(...) Acho que posso dizer que desta vez não fiz um filme sobre sentimentos. Os resultados que obtive com meus filmes anteriores – sejam bons ou ruins – estão ultrapassados agora. A questão é completamente diferente. Antes eu estava interessado nos relacionamentos dos personagens entre si. Agora a protagonista deve confrontar seu ambiente social, eis porque eu tratei a história de uma maneira completamente diferente (...)” (ANTONIONI, M. 1996: 287)

Antonioni filmou no entorno da cidade italiana de Ravenna, afirmando em entrevista que “o filme é mais sobre um ambiente do que um personagem” (3). Murray Pomerance faz duas observações em relação àquilo que poderíamos chamar de “signos da modernidade” em O Deserto Vermelho. No primeiro exemplo, Ugo está na fábrica em companhia de Corrado quando uma grande cortina de fumaça irrompe do interior do prédio momentos após o primeiro tragar um cigarro e jogá-lo fora. 

E por falar em fumaça, note-se que Giuliana pretende montar uma loja na Via Alighieri, rua que recebeu o nome de um poeta (Dante Alighieri, 1265-1321) famoso por ter viajado até o inferno. Outro signo de uma modernidade em desequilíbrio seria o robô de Valério, filho de Giuliana e Ugo. Pomerance enxergou nesse brinquedo algo das esculturas antropomórficas de Alberto Giacometti (1901-1966): “(...) esguio e gracioso, ele parece bastante humano, mas humano para um mundo onde a presença é mais importante do que a experiência (...)” (POMERANCE, M. 2011: 88).




O próximo exemplo de Pomerance se encaixa na tese de Antonioni a respeito das pessoas que tem dificuldade em se adaptar a novas situações. Na cena em que Giuliana sai do quarto do filho (onde desligou o robô), Pomerance acredita que ela começa a ouvir sons e entra em pânico (4). Segue-se um vai e vem entre Ugo e Giuliana que evidencia uma “dança das cores” (branco e azul). Pomerance parte do significado cultural do banco e do azul no Ocidente (branco = unidade, presença; azul = distância, profundidade) para sugerir que a contradição ambulante que é Giuliana (vestindo camisola e roupão brancos) estaria representada no cenário (que intercala paredes brancas e azuis). 

Além disso, lembra Pomerance, o branco é a mistura de todas as cores. O que o levou a se perguntar se esta cena (entre outras) representa uma pessoa tendo um ataque, um acesso nervoso - entendido como a reação de uma pessoa que não se encaixa em suas circunstâncias, com o branco da camisola apontando para a mistura contraditória das muitas Giulianas e das muitas realidades que esbarram nelas. Vale lembrar que, na busca de adequar os sentimentos dos personagens de O Deserto Vermelho e o ambiente ao redor, Antonioni chegou a pintar árvores e até um bosque (que acabou não entrando no filme) – digna de nota é a cena com a carroça de frutas cinzentas.

Por outro lado Ugo seria, ainda segundo Pomerance, o tipo da pessoa capaz de se ajustar ao mundo tecnológico. Como exemplo, a cena onde Ugo mostra o pequeno giroscópio amarelo para Valério. O equipamento funciona a partir do próprio interior, ele é a estabilidade produzida por ele mesmo. “(...) Uma estabilidade em movimento que caracteriza aqueles cuja experiência [da modernidade] é indolor” (Idem: 90).

Pomerance questiona a hipótese corrente de que O Deserto Vermelho seja a história de uma mulher neurótica rodeada pelo ambiente industrial que a oprime, Giuliana apenas é alguém que nasceu fora de seu tempo. Ela não temeria a fábrica, mas aquilo que representa. “(...) Não é que uma neurótica tenha batido de frente com a lógica do industrialismo. Pelo contrário, a obscenidade do industrialismo bateu de frente com a lógica do poeta (...)” (Ibidem: 91).




Pomerance esclarece que na mesma época do lançamento de O Deserto Vermelho a psiquiatria passava por uma série de questionamentos em torno das ideias de Thomas Szasz e R. D. Laing. Giuliana não era neurótica, acredita Pomerance, mas vivia num mundo hostil a seus interesses. Um mundo que deixa neurótico esse tipo de gente. Em seu famoso artigo sobre o cinema de poesia (1965), Pasolini cita alguns filmes de cineastas como os italianos Bernardo Bertolucci e Antonioni, o francês Jean-Luc Godard e o brasileiro Glauber Rocha, como exemplos deste tipo de abordagem cinematográfica.

Contudo, ao contrário do que parece, não se trata exatamente de um elogio de Pasolini. No caso de Antonioni, justamente O Deserto Vermelho é citado como exemplo em função (também) da personagem neurótica. Embora Pasolini indique que certas obras desses cineastas apresentam elementos que rompem com um modelo narrativo ultrapassado, tais elementos carregam um germe burguês que logo os transformará num discurso dominante (uma força homogeneizante que não faz outra coisa senão neutralizar a heterogeneidade e reproduzir um padrão universal). Podemos compreender melhor então o contexto do comentário de Pasolini numa entrevista concedida ao Cahiers du Cinéma em 1965, que de outra forma soa contraditória: 

“Provavelmente, meus filmes não pertencem a esta corrente. Ou então só em parte: isso valeria exclusivamente para meu último filme, O Evangelho Segundo São Mateus [Il Vangelo Secondo Matteo, 1964]. Mas Accattone, Mamma Roma, A Ricota foram feitos segundo a sintaxe clássica; aquela do cinema de Chaplin a Bergman, de Mizoguchi a Dreyer” (5) (SITI, W.; ZABAGLI, F. 2001: 2899)

Entre outras coisas, o que está em jogo aqui é o estatuto do cinema de autor. Segundo Pasolini, no cinema de poesia o autor tende a surgir no filme através do discurso de seus personagens neuróticos e/ou instáveis. O francês Jean-Luc Godard teve seus próprios motivos para admitir que “a noção de autor é uma noção completamente reacionária” (TEIXEIRA, F. E. 2000: 82). No Brasil, de acordo com Francisco Elinaldo Teixeira, a desinformação quanto ao teor do artigo de Pasolini teria uma razão no mínimo insólita relacionada ao Cinema Novo:

“(...) O olhar marxista de Pasolini, como ele próprio o reclama, dirige seu foco à abundância de personagens anormais, em crise, transe, que os autores não pararam de pôr em circulação, assimilando [esses autores] à ‘fina flor da burguesia’ e, desse modo, à ilusória pretensão universalista de sua ideologia. A avaliação é bastante severa, mas, ao que parece também procedente e pertinente: na versão brasileira do texto de Pasolini, publicado à mesma época pela Revista Civilização Brasileira, que tinha um foco cinemanovista, os trechos com esse tom mais interpelador, desencantado e niilista, foram sumariamente suprimidos” (Idem: 81)

A Lixeira de Antonioni



Desde o ensaio fotográfico que realizou em 1943, ao propor o que se tornaria o documentário Gente del Po (1943-47), Antonioni não clamava por um retorno ao passado pré-industrial – como clamou Pasolini, que não tinha nenhuma fé no progresso (PONZI, M. 2010: 7). Antonioni defendia a adaptação – um tema que retornará em O Deserto Vermelho. De fato, segundo Noa Steimatsky, Antonioni acreditava no papel instrumental do cinema nesse processo de ajustamento, em função de sua capacidade única de mediação entre ambiente moderno e percepção humana (STEIMATSKY, Noa. 2008: 4). (imagem acima, Zabriskie Point)

Ao contrário do que possa parecer, O Deserto Vermelho é um filme ambivalente em relação ao lixo industrial (SCHOONOVER, K. 2011: 242, 248). Karl Schoonover mostra como o lixo determina muito da estética de Antonioni. Não é que apareça muito lixo nos filmes de Antonioni - com exceção do pequeno documentário Limpeza Urbana (N.U. Netteza Urbana, 1948) e O Deserto Vermelho. Uma série de procedimentos do cineasta apresenta este elemento, onipresente na sociedade industrial. Por exemplo, paredes manchadas e marcadas em Os Vencidos (I Vinti, 1953) e Profissão: Repórter (Professione: Reporter, 1975), explosões em Zabriskie Point (1970), engarrafamentos em A Noite. Também se encaixam aqui os passeios a pé (“perdas de tempo” segundo Schoonover) de Lídia pelas ruas de Milão (A Noite) e os de Vitória naquele bairro (EUR) de Roma (O Eclipse), sem falar na mulher urinando (e se limpando) em Identificação de Uma Mulher (Identificazione di una Donna, 1982).

O problema não é com a época em que se vive (a sociedade ocidental industrial e toda a poluição que ela implica), mas a incapacidade das pessoas em se adaptarem a ela. Schoonover cita a cena final de O Deserto Vermelho (quando a criança comenta sobre o pássaro voando em torno da chaminé expelindo gases tóxicos) como exemplo do lado de Antonioni a favor da tecnologia. Antonioni não era contra a tecnologia ou a indústria, embora este filme apresente muitas evidências em contrário. O cineasta sempre esteve interessado em incorporar novas tecnologias ao seu trabalho, quanto a isso bastam suas declarações no documentário Quarto 666 (Chambre 666, direção Wim Wenders 1982). Antonioni também enxerga o sublime num mundo enterrado em detritos. Como o próprio cineasta esclareceu numa entrevista à Godard em 1964:

“(...) É muito simplista dizer – como muitas pessoas fizeram – que eu estou condenando o mundo industrial inumano que oprime os indivíduos e os leva à neurose. Minha intenção – e eu percebo que sempre se sabe onde alguém começa, mas muito raramente para onde se está indo - foi traduzir a poesia desse mundo, no qual mesmo as fábricas podem ser belas. As linhas e curvas das fábricas e suas chaminés podem ser mais belas do que uma linha de árvores, as quais nós já estamos muito acostumados a ver. É um mundo rico, vivo e útil. Tenho de dizer que a neurose que procurei descrever em O Deserto Vermelho é acima de tudo de ajustamento. Existem pessoas que não se adaptam, e outras que não conseguem administrar, talvez porque estejam muito ligadas a estilos de vida ultrapassados atualmente. Esse é o problema de Giuliana. O que provocou sua crise pessoal foi a divisão irreconciliável, o fosso, entre sua sensibilidade, inteligência e psicologia, e o estilo de vida imposto a ela. É uma crise que não tem apenas a ver com suas relações superficiais com o mundo – sua percepção de sons, cores, e a frieza das pessoas ao seu redor -, mas com todo o seu sistema de valores (social, moral e religioso), que está atualmente fora de moda e não pode mais sustentá-la. Portanto, ela descobre que tem de se reinventar completamente enquanto mulher. Esse é o conselho que seus médicos lhe dão e que ela procura seguir. O filme, de certo modo, é a história desse esforço”. (...) “Eu tenho sido criticado por ter escolhido um caso patológico. Mas se tivesse escolhido uma mulher perfeita e normalmente integrada à sociedade, não haveria drama; o drama reside naqueles que não se adaptam às normas da sociedade” (ANTONIONI, M. 1996: 287-8, 289) (abaixo, O Eclipse)




Não resta dúvida de que o cineasta aponta e mostra um mundo em desequilíbrio. O equívoco reside apenas em considerar que Antonioni fosse contra o mundo moderno. É evidente que o progresso industrial gera desequilíbrios (ecológicos, sociais e materiais). Não obstante, para Antonioni o maior desequilíbrio é fruto da incapacidade de adaptação do ser humano às mudanças. Na verdade, desequilíbrios atribuídos ao sistema poderiam ter aí sua origem. Antonioni parece acreditar que pessoas como Giuliana não tem consciência dessa transferência (PINKUS, K. 2011: 263).

A neurose de Giuliana não impressiona Karen Pinkus tanto quanto o interesse do filho da personagem em robôs. Por outro lado, embora Pinkus afirme que o tema de O Deserto Vermelho é a devastação ecológica, ela também sugere que, sendo a própria película cinematográfica em si fruto do progresso tecnológico, fazer um filme (sobre devastação ecológica) é já uma forma de se adaptar e admitir a participação humana na mudança climática ora em curso no planeta Terra. Não há como fugir do interesse de Antonioni por fábricas, para quem elas são lindas e até justificam a utilização da cor. Elas ganham com a cor mais do que as casas, disse Antonioni - a cor tem uma funcionalidade na fábrica, um cano será pintado de verde ou amarelo e seu conteúdo será identificado onde surgir.

Com todas estas afirmações bastante diretas, é curioso o comentário de Pinkus a respeito da sequência do conto de fadas em O Deserto Vermelho. Esta teria sido a única parte do filme que não teve suas cores originais modificadas por Antonioni. Filmada na Sardenha, na costa italiana (Mar Tirreno) – que não deixa de nos inspirar quanto à Lisca Bianca, filmada em preto e branco, na primeira parte de A Aventura -, o cineasta não interveio “porque esse é um mundo que (ainda) não foi transformado pela indústria” (Idem: 264). Parece haver uma confusão entre o “mundo colorido” da fábrica (que denota adaptação) e o mundo da natureza (que ainda é colorido justamente porque não foi tocado pela modernidade industrial). Como afirmou o cineasta no lançamento do filme:

“Eu gostaria de deixar claro que não é o ambiente [industrial] que causa a crise [de Giuliana]: isso é apenas o gatilho. Você poderia pensar que fora deste ambiente não haveria crise. Não é assim. Mesmo que não percebamos, nossas vidas são dominadas pela ‘indústria’. E por ‘indústria’ eu não estou me referindo às fábricas em si, mas também a seus produtos. Eles estão por toda a nossa casa, feitos de plástico ou de materiais que, até alguns anos atrás, eram totalmente desconhecidos. São muito coloridos e nos perseguem em todos os lugares. Eles nos perseguem através da propaganda, que apela de forma cada vez mais sutil ao nosso subconsciente. Eu chegaria ao extremo de afirmar que, ao ambientar a história de O Deserto Vermelho no mundo das fábricas, alcancei a fonte dessa crise que, como um rio, reúne milhares de tributários e então explode num delta, transbordando suas margens e afundando tudo” (ANTONIONI, M. 1996: 289) (abaixo, O Eclipse)




Para Gilles Deleuze, Antonioni não critica o mundo moderno, em cujas possibilidades ele acreditava profundamente. Repetindo o que o cineasta já havia dito, o filósofo afirma que o Antonioni criticava a coexistência no mundo de um cérebro moderno (que consegue se adequar ao mundo moderno) e um corpo neurótico cansado e desgastado. Citando Pierre Leprohon, Deleuze insistiu que a neurose não seria uma consequência do mundo moderno, mas antes de nossa separação desse mundo, de nossa inadaptação a ele:

“(...) Tanto assim que sua obra passa fundamentalmente por um dualismo que corresponde aos dois aspectos da imagem-tempo: um cinema do corpo, que põe todo o peso do passado no corpo, todos os cansaços do mundo e a neurose moderna; mas também um cinema do cérebro, que descobre a criatividade do mundo, suas cores suscitadas por um novo espaço-tempo, suas potências multiplicadas pelos cérebros artificiais. Se Antonioni é um grande colorista, é porque sempre acreditou nas cores do mundo, na possibilidade de criá-las e de renovar todo o nosso conhecimento cerebral. Não é um autor que lastima a impossibilidade de comunicar no mundo. Simplesmente, o mundo é pintado com cores esplêndidas, enquanto os corpos que o povoam são ainda insípidos e incolores. O mundo espera por seus habitantes, que ainda estão perdidos na neurose. Mais uma razão, porém, para prestar atenção nos corpos, para escrutar os cansaços e as neuroses, tirar matizes deles. A unidade da obra de Antonioni é o confronto do corpo-personagem com seu cansaço e passado, e do cérebro-cor com todas as suas possibilidades futuras, mas compondo ambos um único e mesmo mundo, o nosso, com suas esperanças e desespero” (DELEUZE, G. 1990: 245) (abaixo, O Grito)




***

O cineasta espanhol Luis Buñuel confessou certa vez que não gostava de personagens sem aspectos contraditórios, pois eles não conseguem nos surpreender (DUNCAN, P.; KROHN, B. 2005: 87). Para o cineasta alemão Wim Wenders, fazer um filme é uma diversão. Para Antonioni, ao contrário, é uma tarefa extenuante, quase um sofrimento (pela busca obsessiva de articulação entre soluções técnicas que devem ao mesmo tempo ser poéticas) (6). Cada um vive seu mal estar como sabe.

Michelangelo Antonioni e a Sociedade Industrial foi originalmente publicado em livro na coletânea Cinema e Mal-Estar na Civilização (Editora Max Limonad, 2015), organizada por João Kennedy Eugênio e Wanderson Lima Torres. Reproduzido aqui exatamente como está no original, com apenas três mudanças: a) foram introduzidas imagens para simples ilustração; b) no primeiro parágrafo, “é empregada”, substitui a forma incorreta “são empregados”; c) pequenas correções gramaticais que não alteram o sentido do texto; d) na nota 1 da versão impressa, a palavra ennui é descrita erroneamente como sendo de origem inglesa, aqui sua origem francesa é restabelecida.

Leia também:


Antonioni e o Vazio Pleno
Antonioni Muito Além das Nuvens
As Marionetes dos Mistérios de Antonioni
Michelangelo Antonioni e Soraya Esfandiary
Roma de Antonioni

Notas:

(1) Sarris parte de um jogo de letras entre o nome do cineasta e a palavra francesa ennui (tédio): Antoniennui.

(2) Em A Aventura existe uma cena de insinuação de homossexualismo feminino, quando Claudia e Anna trocam de roupa no barco. Por outro lado, Florence Mauro sugere que nesse filme Antonioni filma sua esposa Mônica Vitti (Cláudia) com certo pudor. Na cena da orgia em O Deserto Vermelho, poucos irão notar a presença de Rita Renoir, uma stripper famosa daquela época - a mulher loura de vestido verde. Com Blow Up, Depois Daquele Beijo (Blow Up, 1966), Antonioni será o primeiro a romper com o tabu em torno do pelo pubiano feminino nas telas de cinema (BOUYXOU, J.-P. 1991: 80, 403; MAURO, F. 1991: 322). O cineasta falava da doença de Eros durante a revolução sexual, mas deixou claro que a repressão sexual não fazia mais sentido. Pasolini, por outro lado, sugeriu que tornar o sexo uma obrigação era a nova forma de repressão inventada pelo Poder – fazendo da busca do prazer uma obsessão compulsiva.

(3) Comentário em As Telas da Cidade (Les Ecrans de La Ville, 1964). Documentário nos extras do DVD de O Deserto Vermelho, lançado no Brasil pela Versátil Home Vídeo.

(4) De fato, o que ouvimos é a trilha sonora eletrônica, cujos zumbidos vão e voltam durante todo o filme; realmente não há referências de que se trate de sons da cabeça de Giuliana. Tais zumbidos eletrônicos constituem a trilha sonora composta por Vittorio Gelmetti, interpretada por Giovanni Fusco. Antonioni não escondia seu desinteresse por trilhas sonoras musicais, mas este exemplo de O Deserto Vermelho, assim como a música eletrônica que podemos ouvir em Identificação de Uma Mulher (1982), são mais um indicador do interesse do cineasta pela alta tecnologia.

(5) Pino Bertelli citou (sem datar) uma frase bastante direta de Pasolini em relação à Pocilga (Porcile, 1969): “[Este é o] que mais tende ao cinema de poesia. É o irmão gêmeo de Gaviões e Passarinhos [Uccellacci e Uccellini, 1966] e é parente de Teorema [1968] no aspecto estilístico (…)” (BERTELLI, Pino. 2001: p. 219).

(6) Comentário do cineasta em Michelangelo Antonioni. O Olhar que Mudou o Cinema (Michelangelo Antonioni. Lo Sguardo Che ha Cambiato Il Cinema, direção Sandro Lai, 2001). Documentário nos extras do DVD de A Noite, lançado no Brasil pela Versátil Home Vídeo.

Referências Bibliográficas


ANTONIONI, Michelangelo. Architecture of Vision. Writings and Interviews on Cinema. USA: University of Chicago Press, 1996. 

BENCI, Jacopo. Identification of a City: Antonioni and Rome, 1940-62. In: RASCAROLI, Laura; RHODES, John David (orgs.). Antonioni. Centenary Essays. London: Palgrave MacMillan/BIF, 2011. 

BERTELLI, Pino. Pier Paolo Pasolini. Il Cinema in Corpo. Atti Impuri di um Eretico. Roma: Edizioni Libreria Croce, 2001. 

BOUYXOU, Jean-Pierre. Vulve. In: BERGALA, Alain; DÉNIEL, Jacques; LEBOUTTE, Patrick (orgs). Une Encyclopédie du Nu au Cinéma. Éditions Yellow Now/Studio 43 – MJC/Terre Neuve Dunkerque, 1991. 

_________________. Burlesque Pictures. Sexploitation Movies 1. In: BERGALA, Alain; DÉNIEL, Jacques; LEBOUTTE, Patrick (orgs). Une Encyclopédie du Nu au Cinéma. Éditions Yellow Now/Studio 43 – MJC/Terre Neuve Dunkerque, 1991.

BRUNETTE, Peter. The Films of Michelangelo Antonioni. New York: Cambridge University Press, 1998.

DELEUZE, Gilles. Cinema 2: A Imagem-Tempo. Tradução Eloisa de Araujo Ribeiro. São Paulo: Brasiliense, 1990. 

DUNCAN, Paul KROHN, Bill (Ed.). Luis Buñuel. Filmografia Completa. Köln: Taschen, 2005. 

MAURO, Florence. Pudeur. In: BERGALA, Alain; DÉNIEL, Jacques; LEBOUTTE, Patrick (orgs). Une Encyclopédie du Nu au Cinéma. Éditions Yellow Now/Studio 43 – MJC/Terre Neuve Dunkerque, 1991.

PINKUS, Karen. Antonioni’s Cinematic Poetics of Climate Change. In: RASCAROLI, Laura; RHODES, John David (orgs.). Antonioni. Centenary Essays. London: Palgrave MacMillan/BIF, 2011. 

POMERANCE, Murray. Michelangelo Red Antonioni Blue. Eight Reflections on Cinema. Berkeley: University of California Press, 2011. 

PONZI, Mauro. Pasolini and Fassbinder: Between Cultural Tradition and Self-Destruction. In: NOUSS, Alexis; VIGHI, Fabio. Pasolini, Fassbinder and Europe: Between Utopia and Nihilism. Newcastle upon Tyne: Cambridge Scholars Publishing, 2010.

RASCAROLI, Laura; RHODES, John David. Interstitial, Pretentious, Alienated, Dead: Antonioni at 100. In: RASCAROLI, Laura; RHODES, John David (orgs.). Antonioni. Centenary Essays. London: Palgrave MacMillan/BIF, 2011.

SCHOONOVER, Karl. Antonioni’s Waste Management. In: RASCAROLI, Laura; RHODES, John David (orgs.). Antonioni. Centenary Essays. London: Palgrave MacMillan/BIF, 2011. 

SITI, Walter; ZABAGLI, Franco (Eds.). Pier Paolo Pasolini per il Cinema. Milan: Mondadori, vol. II. 2001. 

STEIMATSKY, Noa. Italian Locations. Reinhabiting the Past in Postwar Cinema. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2008. 

TASSONE, Aldo. Antonioni. Paris: Flammarion. 2007. 

TEIXEIRA, Francisco Elinando. Cinema e Poéticas de Subjetivação. In: BARTUCCI, Giovanna (org.). Psicanálise, Cinema e Estéticas de Subjetivação. Rio de Janeiro Imago, 2000.

30 de set. de 2015

Arcaísmo e Cinema no Evangelho de Pasolini



Se isso é  cinema de poesia,  poderíamos dizer
 que seria também um autorretrato neurótico?

Prenúncio de Uma Revolução?

Ao iniciar as filmagens de O Evangelho Segundo São Mateus (Il Vangelo Secondo Matteo, 1964), Pier Paolo Pasolini já havia realizado dois longas-metragens, Accattone. Desajuste Social (Accattone, 1961) e Mamma Roma (1962), um média-metragem, A Ricota (La Ricotta, episódio de Rogopag. Relações Humanas, 1963), e havia também elaborado muitos roteiros. Além de uma grande preocupação com a tradição pictórica clássica, seu estilo misturava o interesse pelo real com uma visão crítica em relação ao Neorrealismo. Neste início da carreira de Pasolini como cineasta, Stéphane Bouquet ressaltou uma curiosa hibridação. Os “pobres coitados” (poveri cristi) da periferia de Roma tinham suas vidas contadas através de um estilo com muitas referências à pintura da primeira Renascença florentina (Masaccio) ou aos maneiristas italianos (Pontormo, Rosso Fiorentino). Inicialmente,  Pasolini pensava utilizar os mesmos princípios em O Evangelho Segundo São Mateus: filmar picturalmente as paisagens miseráveis do sul da Itália, em busca daquilo que definiu como uma espécie de “sacralidade técnica” (1). (imagem acima, close em Maria ao aparecer grávida, seu rosto se funde com o portal de pedras em arco ao fundo para sugerir uma estética renascentista)

O Evangelho Segundo São Mateus não é apenas “mais um filme religioso”, uma espécie de acidente de percurso na obra de um pensador caótico. O título original do filme omite (como o faz o próprio Evangelho) o “São” adicionado na versão norte-americana, uma distorção que desagradava Pasolini (2).  De fato, o filme foi incluído na lista de filmes aprovados pelo Vaticano – sendo o primeiro filme italiano a consegui-lo. Pasolini nunca escondeu seu ateísmo e marxismo, embora não fosse ortodoxo em nenhum dos dois casos. A história da produção é complexa. Em outubro de 1962, na condição de convidado em Assis da Pro Civitate Christiana, uma instituição atenta às tendências liberais e de esquerda na promoção da cultura católica na Itália contemporânea, Pasolini leu o Evangelho que encontrou em sua cabeceira. Numa troca de cartas com seu produtor Alfredo Bini e membros da Pro Civitate, Pasolini descreveu sua impressão do texto em termos que conotavam um senso de religiosidade, intercambiável em sua mente com uma revelação estética. Tendo em vista tal entusiasmo por parte de uma figura famosa, ainda que de má reputação, os diretores do escritório de cinema da Pro Civitate, sob a consulta de padres, teólogos e especialistas na bíblia (que avaliaram também o tratamento da Crucificação em A Ricota) concordaram em apoiar o projeto de Pasolini.


      A sequência dos Reis Magos é um exemplo de contaminação
      entre   o   mundano    e   o   divino   no  trabalho   de  Pasolini

O líder da Igreja Católica de então era o Papa João XXIII, a quem Pasolini dedicou O Evangelho Segundo São Mateus. Tal atitude partindo de um católico não praticante anticlerical evidencia a postura de João XXIII, que se abriu ao anticolonialismo, à esquerda, a cooperação entre as diferentes ideologias, a justiça social e a luta no Terceiro Mundo. A Pro Civitate Christiana financiou uma expedição à Palestina, que resultou no documentário Locações na Palestina (Sopralluoghi in Palestina, 1963-1965) (3). Em relação a seu filme anterior, A Ricota, um conselheiro da Pro Civitate Cristiana confirmou que não manifesta desprezo, mas sim uma séria exploração contemporânea do tema. Na opinião de Noa Steimatsky, de fato apenas uma análise superficial sugeriria que o filme parece “desconsagrar” (profanar, secularizar) (4). 

A primeira coisa que surge na lembrança dos conhecedores de Pasolini é o conceito de Cinema de Poesia, mas ao que parece poucos sabem que foi em função das filmagens de O Evangelho Segundo São Mateus que surge a tese. Outro elemento central no pensamento de Pasolini que deve muito ao trabalho neste filme é sua relação com o passado, bastante problematizado pelo cineasta-poeta em sua denúncia da perda dos valores tradicionais na sociedade moderna consumista. Trabalhos como A Ricota (onde um ator faminto, cujo personagem é um dos ladrões crucificados com Cristo, se encontra atormentado pela indiferença da indústria cinematográfica que, mesmo produzindo um filme sobre a Crucificação, não é capaz de perceber a Paixão quando presencia uma) (5) e Teorema (onde o anjo-Cristo passa sua mensagem através do ato sexual) (6) são dois exemplos dos desdobramentos possíveis da mensagem de Cristo segundo Pasolini.

O Arcaico na Modernidade


Antes de filmar O Evangelho Segundo São Mateus, Pasolini partiu em busca de locações na terra onde tudo teria acontecido. Pesquisa que foi registrada no infelizmente pouco conhecido documentário Locações na Palestina. Embora não estivesse surpreso, Pasolini ficou desapontado com o aspecto industrial moderno de Israel. Mais impressionante foi sua descoberta das dimensões modestas dos lugares santos – como disse Pasolini na época, tudo cabia na palma de sua mão. A diferença entre o aspecto humilde do local real e a sombra grandiosa do mundo arcaico na Bíblia aprofundou a noção de contaminação, já utilizada por Pasolini: “A contaminação [entre] humildade e grandeza talvez descreva, num nível mais fundamental, a impregnação de restos arqueológicos reais - aparentemente apenas ‘fragmentos miseráveis’ espalhados, poeirentos – por uma carga mítico-visionária cuja pretensão de autenticidade e valor é de uma ordem completamente diferente daquela das próprias ruínas” (7). Na contaminação, uma paisagem de pobreza e ruínas, as suntuosas riquezas da arte Cristã, o contemporâneo e o arcaico, o real e o fantasmático, se cruzam e interpenetram sem neutralizarem um ao outro. Em outras palavras, ao invés de utilizar a evidência arqueológica para destruir o dogma teológico, Pasolini abraçou ao mesmo tempo a concretude material dessa evidência e a grande ressonância do mito.

Em Accattone. Desajuste Social, Pasolini já havia utilizado a contaminação (quando Accattone luta com o irmão de Ascenza ao som da Paixão Segundo São Mateus, bwv 244, de Johann Sebastian Bach). De acordo com Pasolini, no caso de Locações na Palestina, filmado na Galiléia, Jordânia e Síria, a contaminação é imanente à própria paisagem. A impressão dominante, repetidamente articulada neste documentário que coleciona locações para O Evangelho Segundo São Mateus, é da humildade – este é o termo utilizado por Pasolini – dos locais que o Evangelho determina como o grande palco da pregação e Paixão de Jesus. Do ponto de vista da contaminação, a paisagem pobre e em ruínas se deixa penetrar pelas riquezas da arte cristã, mas sem se neutralizarem mutuamente. Mesmo antes da viagem Pasolini já havia decidido não utilizar as locações para seu filme sobre o Evangelho de São Mateus. A expedição à Palestina teria como função informar a noção de analogia, que, complementando aquela de contaminação, qualifica a fundamentação cristológica do projeto (8).
De acordo com Noa Steimatsky, ao ressituar, deslocar e criar saltos temporais (cronológicos), a analogia será um elemento recorrente nas adaptações criadas por Pasolini, lançando luz em suas teorias cinematográficas idiossincráticas. As locações no norte a África e da Itália para Édipo Rei (Edipo Rex, 1967), na Anatólia (Turquia) para Medeia (Medea, 1969), em Nápoles para O Decameron (1971) e a cidade de Salò (norte da Itália) para Salò ou os 120 Dias de Sodoma (Salò o le 120 Giornate di Sodoma, 1975), estão entre os celebrados exemplos da prática da analogia por Pasolini. Em Notas Para Uma Oréstia Africana (Appunti per un’ Orestiade Africana, 1970) Pasolini medita sobre como “exportar” o mito grego mediterrâneo para a África subsaariana contemporânea e para os guetos negros nos Estados Unidos. No filme não realizado sobre a vida de São Paulo, a Nova York contemporânea seria a Roma antiga, Paris seria Jerusalém, a Roma moderna seria a antiga Atenas, Londres seria a Antioquia (Turquia), e o Oceano Atlântico do “teatro de viagens” de Paulo seria o Mar Mediterrâneo. No caso de Notas Para Uma Oréstia Africana, Steimatsky ressalta que o método de adaptação por analogia também revelou suas armadilhas. Pasolini estava maravilhado com as fisionomias autóctones, mas retirou o projeto porque aqueles africanos acabaram por se tornar para ele “um Outro” impenetrável (9). (imagem abaixo, vista de Matera)


Mas foi no projeto do Evangelho Segundo São Mateus que o processo de ressituar por analogia tomou corpo. As impressões do lugar original foram “importadas” para o sul da Itália. Pasolini levou tudo isso (Galiléia, Jordânia e Síria) para a Calábria, Basilicata, Puglia e Lazio (mais para o centro do país). Tendo visto os locais por onde Cristo haveria caminhado, e ouvindo seu guia em Locações na Palestina dizer que era preciso ter ido lá para poder reinventar aquele lugar em outro lugar, Pasolini se questionava sobre a responsabilidade de evitar uma redução literal da Terra Santa. E assim Pasolini introduz os locais mais humildes no sul da Itália. Lugares bastante distantes dos centros santos oficiais – Roma ou Jerusalém –, dotados de um valor sacro autêntico pessoalmente traduzido da Terra Santa. Como explicou o próprio Pasolini:

“Eu havia decidido fazer isso mesmo antes de ir à Palestina, o que eu fiz apenas para aliviar minha consciência. Eu sabia que poderia fazer o Evangelho por analogia. O sul da Itália me permite fazer a transposição do mundo antigo para o moderno sem ter de reconstruí-lo, seja arqueologicamente ou filologicamente... [Jerusalém] era a parte velha de Matera [em Basilicata] [imagem acima], a qual agora, ai, está caindo em ruínas - a parte conhecida como Sassi. Belém foi uma vila na Apulia [Puglia] chamada Barile, onde as pessoas realmente estavam vivendo em cavernas, como no filme, há apenas alguns anos atrás. Os castelos eram castelos Normandos pontilhando em volta da Apulia e Lucania. A parte do deserto onde Cristo está andando com os apóstolos eu filmei na Calábria. E Capernaum é formada por duas cidades: a parte próxima do mar é uma vila perto de Crotona, a parte ao se desviar o olhar do mar é Massafra” (10)

Não era a história reconstruída que interessava à Pasolini, mas a persistência de formas arcaicas no interior do mundo contemporâneo: estas formas foram localizadas no mundo deserdado da periferia italiana (o sul do país) na década de 60 do século passado, uma região a que foi negada participação na cultura hegemônica. O sul da Itália, explicou Pasolini na época da estreia de O Evangelho Segundo São Mateus, ainda era visto como uma parte do Terceiro Mundo – ignorado pela modernidade, ainda que fosse explorado pelo norte industrializado. Mas Pasolini não pretende apenas contrapor o arcaico e o progresso, ele os vê como uma força dialética vital, análoga àquela que encontrou no Evangelho de Mateus quando Cristo desafiou seus contemporâneos. O cineasta acreditava que o fato daquela parte da Itália haver escapado da cultura burguesa-capitalista e da racionalidade Iluminista dessacralizada tornava as locações escolhidas capazes de empurrar a modernidade na direção de uma conscientização mais profunda (11). 

A Paisagem e o Olhar


O arcaísmo de Masaccio está presente
na   sequência   da   Última   Ceia

Para filmar Paisà (1946), um dos marcos do Neorrealismo, Roberto Rossellini viajou pela Itália de norte a sul. Quando nos debruçamos no mapa e procuramos as locações de O Evangelho Segundo São Mateus, parece um grande roteiro turístico pelo país. Enzo Siciliano atuou no filme como Simão, um dos apóstolos. Ele disse que o batismo de Jesus no Jordão foi filmado num riacho entre Orte e Viterbo, no norte da Itália. A sequência do Monte das Oliveiras foi filmada entre a Villa de Adriano e Tivoli, próximo de Roma. A seguir todos partiram para Matera e Crotona, no sul. As cenas da tentação por Satanás foram filmadas nas encostas do monte Etna, na Sicília (12). Não se pode dizer que o cinema italiano, pelo menos durante certa época, não fez de seu próprio país um grande palco. 

Steimatsky ressalta a importância das paisagens em O Evangelho Segundo São Mateus. Para além do fato já exposto de uma analogia entre a Terra Santa e o sul da Itália, não foi casual a escolha de Matera, o topo de uma montanha na Basilicata, como análogo de Jerusalém. Ela já foi uma espécie de Terra Santa no princípio do cristianismo. Eremitas fugindo das perseguições ali encontravam elementos “análogos” à suas terras de origem (Palestina, Capadocia, Síria). Naquele lugar isolado coexistem influências bizantinas, ocidentais e latinas. Na verdade, havia um grande trabalho arqueológico em curso por lá entre 1959 e 1966 – lembrando que o filme é de 1964. Pasolini também conhecia outra fama de Matera. Ela era chamada de “a vergonha da Itália”, representando o ponto máximo do subdesenvolvimento do sul do país no pós-guerra: antigas habitações na pedra sem condições sanitárias, conhecidas como Sassi, ainda eram utilizadas pela população campesina na década de 50 do século passado. Portanto, nesta época Matera se torna ao mesmo tempo um modelo para a preservação do patrimônio cultural e local da construção de outro conjunto habitacional – La Martella foi construído nas cercanias de Matera (13).

Pasolini estava atento ao choque entre o arcaico e o novo, e temia que o primeiro sucumbisse ao segundo. Num documentário gravado em 1971, Os Muros de Sana’a (Le Mura di Sana’a), ele já havia tocado no assunto em relação ao patrimônio arquitetônico do Iêmen. Em 1974, no documentário A Forma da Cidade (La Forma della Città), Pasolini se refere ao assunto partindo do exemplo da cidade medieval de Orte – na região italiana do Lazio. Embora o pequeno filme já tivesse sido inserido no documentário sobre Sana’a, Pasolini enfatiza novamente como a arquitetura medieval estava sendo desfigurada por prédios de arquitetura moderna, com parâmetros impostos pela especulação imobiliária. Nos dois casos se pode perceber como Pasolini mescla uma visão estética nostálgica e sua crítica político-ideológica – embora ele insista que não se trata de nostalgia. As imagens que Pasolini fez de Matera, especialmente a beleza severa do Sassi, são também um exemplo de como uma cidade pode se inserir de forma correta na paisagem. Uma cidade habitada por séculos parece emergir da paisagem como se fosse parte dela.


Numa das poucas vezes em que O Evangelho Segundo São Mateus reproduz o ponto de vista de Cristo, Pasolini estabelece uma reciprocidade entre a paisagem e a fisionomia humana, entre o olhar e os objetos. A paisagem é tocada pelo olhar de Jesus (ou pela câmera de Pasolini). A própria percepção do cineasta-poeta se equipara à visão divina. Tocadas por esse olhar, as “coisas do mundo” encarnam o sagrado. Como num ícone religioso, Matera se torna ao mesmo tempo tela de fundo da Paixão prestes a acontecer, sua testemunha compadecida, e ela própria um objeto de contemplação divina. Talvez procurando encaixar a proposta de Pasolini no planeta dos teóricos da imagem cinematográfica, Steimatsky resgata as palavras de Béla Balázs: 

“O filme, como a pintura, oferece a possibilidade de dar ao fundo, às imediações, uma fisionomia não menos intensa do que os rostos dos personagens... É como se subitamente a região rural estivesse levantando seu véu e mostrando sua face, e na face uma expressão que reconhecemos, ainda que não consigamos nomeá-la” (14)

Talvez Steimatsky esteja sugerindo outra fonte para a hipótese de Pasolini, já que os escritos de Balázs foram traduzidos para o italiano ainda durante o Fascismo, no final dos anos 30 do século passado. Os escritos de Walter Benjamin sobre o caráter cerimonial da aura também foram celebrados na Itália de então (15). “Esta é a face da terra”, conclui Steimatsky referindo-se às palavras de Bálazs. 

“Sua expressão, seu olhar de volta, sua praesentia, é desvendada por uma percepção de consagração, agora identificada com a [percepção através] da câmera cinematográfica. Assim como o sagrado é transportado da Terra Sancta para [Matera], sua encarnação na humanidade de Cristo incide sobre a paisagem arcaica que fundamenta essa imagem, permitindo uma expressividade mais duradoura do que aquela de um rosto sozinho. Pasolini busca capturar na superfície filmada, nas ‘coisas do mundo’, um vislumbre da imagem icônica de Deus: vistos, porém não completamente nomeáveis, excedendo o particular e o histórico em sua apoteose na paisagem. Não é captado como texto, nega a arbitrariedade dos signos, transpira no filme. De acordo com tal teologia, a analogia enquanto princípio de trabalho é complementada pela anagogia (16), a participação do trabalho no sentido divino, onde aquilo que foi dito no escuro é projetado na luz” (17)

Realidade e Realismo Segundo Pasolini


Portanto, o conceito de analogia alcançaria um status especial na teoria pasoliniana de cinema. O referente e a representação, a realidade e sua inscrição num filme, são entendidas como partes análogas de um mesmo contínuo. A analogia define a relação entre o signo audiovisual cinemático particular e sua fonte no campo de visão da câmera. Técnicas como enquadramento e edição levam a analogia para além do “naturalismo” (algo que Pasolini abomina). Na aposta de Pasolini, o signo não é apenas aquilo que está no lugar de outra coisa, é algo que a torna manifesta e legível: o signo cinematográfico é a própria articulação intensificada da realidade. Steimatsky observa que existe uma relação entre esta proposta de Pasolini e a semiologia de Roland Barthes – não o estruturalista, mas a parte de sua obra dedicada à fotografia. A semiótica de ambos aponta para uma fenomenologia, sendo que a de Pasolini transborda para o teológico. Um filme poderia assumir a expressividade da realidade, sua plenitude de sentido, aproximando-se de uma plenitude sacra (18). (imagens acima, a mãe de Pasolini, Susanna, atuou no papel da Maria mais velha, aqui durante a crucificação)

Pasolini tinha consciência de que sua tese do signo cinematográfico como o sentido encarnado poderia ser vista como uma percepção arcaica, religiosa e até infantil. Mas o poeta-cineasta insista em dizer que quando contava a história de Cristo seu objetivo não era reconstruí-lo como realmente foi. Como Pasolini não era um crente, um fiel, nem se quisesse conseguiria. Fazer isso, disse ele, seria proceder a uma secularização, uma postura pequeno-burguesa detestável. O que Pasolini afirmou desejar através do cinema foi resantificar, reaproximar as coisas do mito o máximo possível. Como sugeriu Steimatsky, um cinema que visava interromper o “fluxo correto” do discurso ao isolar o objeto e catequizá-lo, seria também capaz de interferir no estilo de cinema que apostava na edição voltada à continuidade e também no Neorrealismo das tomadas longas.

Antes de qualquer coisa, existiria uma “linguagem escrita da realidade” que seria transcrita em filme. Nesse sentido, a impressão cinematográfica (a relação entre imagem e objeto) implica “um certo” realismo, um análogo espacial. Maurizio Viano (19) credita ao próprio Pasolini esta expressão, que também foi abraçada por Steimatsky. Da mesma forma, este “certo realismo” propiciaria um salto temporal para o arcaico. Segundo este ponto de vista, a imagem cinematográfica leva tanto à realidade quanto ao passado. Pasolini pensou a imagem cinematográfica enquanto uma emanação direta da realidade, no mesmo sentido do ícone religioso e da relíquia: a evidência visual da encarnação do sagrado no mundo. Além disso, existe a hipótese do ícone feito “sem as mãos”, que se acredita ter recebido a impressão diretamente do representado - seria total a identidade entre a imagem e seu referente. Foi esta hipótese que levou historiadores da arte, e mesmo figuras eminentes da Igreja nos tempos atuais, a considerar a imagem fotográfica em relação a essa tradição. Foi então que abraçaram as possibilidades do cinema.


A atitude de veneração do retrato/ícone havia informado a arte do século XV na Itália. Foi nesta fonte que Pasolini bebeu quando articulou o arcaico e o moderno em sua adaptação do Evangelho. De fato, sua afinidade com práticas do cinema “arcaico”, frequentemente privilegiando a encenação frontal, muitas vezes atribuída à influência do teatro, poderia estar associada com a frontalidade na imagem devocional. Pasolini fala sobre isso já a respeito de Accattone. Desajuste Social (20). Segundo ele, e lembrando-se do posicionamento do rosto no ícone, falar em frontalidade é o mesmo que dizer sacralidade. Em O Evangelho Segundo São Mateus, essa frontalidade é aparente, apesar do aumento da distância focal. Nos quadros de Masaccio (1401-1428), um dos modelos de Pasolini ao lado de Giotto (1266?-1337) e Piero della Francesca (1415-1492), pode-se pensar uma frontalidade das figuras mesmo quando estão de lado (21). Com relação a frontalidade das figuras, Pasolini também citou como influências o espanhol El Greco (1541-1614) e elementos da retórica dos ícones Bizantinos (22).

Por outro lado, para Stéphane Bouquet tal frontalidade, pelo menos em O Evangelho Segundo São Mateus, aponta também para toda a abordagem estética com a qual Pasolini concluiu que deveria romper – rompimento que resultou na elaboração do conceito de “cinema de poesia”. De fato, admite Bouquet, Pasolini reterá de Giotto o caráter popular do cristianismo. Já em Masaccio, Bouquet observa que Pasolini encontraria sua teoria do “fundo” – onde o cenário perde sua função simbólica, conservando apenas uma função plástica. Um fundo em geral uniforme, cuja função é fazer com que os personagens sobressaiam. Em Accattone. Desajuste Social e Mamma Roma, por exemplo, essa tendência era muito forte. De acordo com Bouquet, a frontalidade, presente na imagem da Virgem no começo de O Evangelho Segundo São Mateus, foi abandonada por Pasolini devido à redundância. No caso de Accattone e Mamma Roma, o elemento sagrado inerente a frontalidade era necessário porque fora aplicado a figuras mundanas (gente comum, bandidos, etc). No caso de O Evangelho, Cristo não tinha necessidade de ser identificado com ele mesmo. Não era necessário filmar o sagrado de maneira sagrada, concluiu o poeta-cineasta. A frontalidade, afirmou Bouquet, foi um dos perigos inerentes a utilização da pintura como inspiração, algo que Pasolini percebeu logo no começo das filmagens (23).

A Contaminação e o Cinema de Poesia


 “O cinema de poesia é uma adaptação
 pasoliniana   das   teses   brechtianas”

Stéphane Bouquet (24)

Mas Steimatsky também sugeriu que Pasolini vai além das citações pictóricas. Como na sequência da Última Ceia, onde o cineasta-poeta interioriza o arcaísmo de Masaccio e o transfere para a linguagem cinematográfica. Entre os Apóstolos que olham para ele e o rosto de Cristo, que olha para fora daquele espaço, insere-se uma dimensão estranha. O espaço cinemático (entre os personagens), que estabelece uma cena doméstica, cede lugar ao olhar de Cristo próximo daquele dos ícones. É um toque de contaminação entre o mundano e o divino. A Adoração dos Magos é outra sequência apontada por Steimatsky como exemplo de contaminação. Pintado em 1426, o quadro homônimo de Masaccio mostra figuras de perfil, já Pasolini começa com o perfil e passa para um ângulo alto, filmando a procissão de frente, do ângulo da Madonna. Mais especificamente, a partir de um ângulo por cima dela (25). Steimatsky ressalta também que Pasolini estaria, ao enumerar os elementos mecânicos que contribuem para uma poética da contaminação, implicitamente descrevendo O Evangelho Segundo São Mateus em seu famoso texto O Cinema de Poesia (26). De fato, Pasolini afirmou em 1965 que apenas O Evangelho Segundo São Mateus poderia ser considerado cinema de poesia:

“Provavelmente, meus filmes não pertencem a esta corrente. Ou então só em parte: isso valeria exclusivamente para meu último filme, O Evangelho Segundo São Mateus. Mas Accattone, Mamma Roma, A Ricota foram feitos segundo a sintaxe clássica; aquela do cinema de Chaplin a Bergman, de Mizoguchi a Dreyer” (27)

Apresentando como referência um livro organizado por Jean Duflot (28), Pino Bertelli cita (sem datar) uma frase de Pasolini bastante direta em relação à Pocilga (Porcile, 1969), um filme posterior. O poeta-cineasta dizia que este é o “que mais tende ao cinema de poesia. É o irmão gêmeo de Gaviões e Passarinhos [Uccellacci e Uccellini, 1966] e é parente de Teorema [1968] no aspecto estilístico (...)” (29). De qualquer forma, Steimatsky considera que, em O Evangelho Segundo São Mateus, Pasolini ultrapassou a falácia do ilusionismo (cópia pura e simples dos elementos da história da arte que agradavam) em favor de uma imanência da visão que permeia não apenas o mundo representado, mas também a própria materialidade do equipamento cinematográfico (lentes, câmeras de mão, etc). Steimatsky é bastante específico a respeito, referindo-se a uma consciência da perfeita tematização da imaginação arcaica por parte de Pasolini desde as primeiras cenas de O Evangelho Segundo São Mateus

“Considere esta primeira tomada muda da jovem Maria grávida, modelada talvez pela Madonna della Misericordia, de Piero [della Francesca], contra um arco cego que a emoldura como seria o feixe icônico ou estrutura de painel. Tais áreas enquadradas, sugeridas por arcos, janelas e portais, freqüentemente utilizados no cinema para aumentar planos adicionais em composições em foco profundo – nós vimos isso em A Terra Trema [La Terra Trema. Episódio del Mare, 1948, de Luchino Visconti] – são normalmente bloqueadas no filme de Pasolini. Ao invés de levar o olho para a profundidade, elas servem aqui para enquadrar uma figura impressa sobre o solo que, orientada na direção de nosso espaço, comprime a figura na superfície da tela. Pasolini combina esta disposição hierática com uma trilha musical quase silenciosa sobre as tomadas em campo/contracampo de José e Maria. Mesmo quando a narrativa começa, o tratamento vigoroso de Pasolini mantém essa orientação dominante: poucos quadros depois, José é enquadrado em plano médio pelas costas, seu torso uma sombra escura contra o fundo brilhante, sua silhueta estampada sobre a vista de Barile, a vila de montanha na Apulia que serve como a Belém de Pasolini. A paisagem, que parece projetada bem na frente dele, preenche o quadro quase inteiramente com muito pouca definição de céu no topo para quase não sugerir distância e dimensão.Por todo o filme, o enquadramento  da paisagem raramente permite mais do que este pedaço de céu para definir os contornos de uma encosta de morro. De fato, onde quer que exista céu sobre as paisagens de O Evangelho Segundo São Mateus, de Pasolini, está normalmente nublado para manter uma superfície opaca e achatada. Em preparação para o sonho de José, uma panorâmica traçando os ritmos ondulantes do morro descreve a extensão das características naturais e elementos arquiteturais – ruínas, cavernas, caminhos -  misturando-se um com o outro na superfície. O próprio movimento de José ao girar e se ajoelhar para dormir repete o movimento da panorâmica descendente: o corpo humano é tomado como sinônimo da paisagem que se descortina, [o surgimento] do anjo parece ‘naturalizado’ no lugar humilde: quase não distinta das crianças mostradas brincando aqui momentos antes, como se tivesse sido sempre parte desse cenário. É como se a paisagem estivesse esperando por esta ilustração para oferecer à vista seu fardo sagrado, sua própria figura oculta: a natural, a diária, e a miraculosa aparição ‘contaminam’ uma a outra. Já nessas tomadas iniciais, portanto, a câmera de Pasolini busca relações de repetição, identidade e reciprocidade entre a paisagem e as figuras. Como se fossem desenhadas por uma única mão sem nenhum abismo, nenhuma sombra separando uma da outra, mas se sobrepondo, colidindo na tela, pertencendo a uma única totalidade hierática” (30) 


A figura de Maria aparece emoldurada como
 numa  pintura  renascentista.  Pasolini repetiria
o procedimento  apenas  mais algumas vezes

De acordo com Bouquet, Pasolini experimentou de tudo em O Evangelho Segundo São Mateus. Colocou o zoom em sua câmera para ver no que dava, multiplicou enquadramentos assimétricos e ângulos pouco habituais. Pasolini procurava uma maneira de desnaturalizar a imagem. Para filmar o sobrenatural acentuando os milagres, a maior parte dos cineastas lança mão de efeitos especiais. Mas Pasolini era ateu, ele não faria um filme para mostrar milagres. De fato, o cineasta-poeta lamentou a incorporação de milagres no filme como um “Barroco quase contra-reforma, repelente... um pietismo repugnante” (31). Bouquet esclareceu que a maioria dos milagres em O Evangelho (com exceção da cura do leproso, que dá lugar a uma transição em fusão – crossfade) são substituídos por elipses. A vinda de Deus a terra corresponde a uma mudança das lentes. Pasolini também utiliza a câmera portátil buscando um plano tremido que introduz a imprecisão e a desordem, se contraponto aos planos estáticos de alguns personagens. Planos amplos são seguidos de closes e vice-versa e/ou por planos que rompem a continuidade (numa mesma ação, como os sermões de Cristo, os planos feitos de dia e à noite são colocados em sequência). Bouquet se pergunta qual é a necessidade de filmar O Evangelho com tantos ruídos e descontinuidades quando outros, como Carl Theodor Dreyer em A Palavra (Ordet, 1955), enxergam aí um acontecimento de grande calma e retorno a inocência? (32)
Para Bouquet existem duas respostas. Em primeiro lugar, a violência da filmagem corresponderia à violência da mensagem política do Evangelho – o Cristo de Pasolini não é da contemplação, mas do combate (um dos poucos planos contemplativos é aquele onde o personagem de Ninetto Davoli brinca com uma criança). A segunda resposta é, justamente, o “cinema de poesia”. O problema teórico que o cineasta-poeta se colocou foi o seguinte: como contar a vida do Cristo e ao mesmo tempo deixar claro que não se compartilha das crenças católicas, que não se confunde a verdade histórica (a existência real de Cristo) com a interpretação religiosa (Cristo é a encarnação de Deus na terra)?

Na resposta tradicional da identificação, esta lacuna teria sido perdida. O espectador teria se identificado com o personagem de Cristo e reconhecido a presença de Deus. Mantendo a lacuna, Pasolini não confundia sua própria voz com a de Cristo. Como decorrência, o espectador não seria engolido numa identificação que aniquila a consciência. Bouquet esclarece que essa postura fora teorizada pelo dramaturgo marxista Bertold Brecht (1898-1956) e se chama distanciamento. Recusa a ilusão e reforço da consciência crítica do espectador, que não está mais lá para experimentar os efeitos (teoria aristotélica e clássica da catarse), mas para acordar o pensamento. O distanciamento, não para de dizer: não acredite naquilo que você vê, mas pense nisso que você vê, tire conclusões e as utilize para mudar o mundo do lado de fora do cinema. Portanto, o conceito de cinema de poesia seria uma adaptação das teses de Brecht. Doravante, disse Pasolini, “sem clímax narrativo, sem catarse, sem encerramento da narrativa” (33).


Bouquet mostra como o conceito de discurso indireto livre desenvolvido por Pasolini não é mais do que o desdobramento do ponto de vista. No ponto de vista clássico, um personagem vive, vê e age no mundo da ficção – é o discurso direto. Do outro lado, a câmera vê esse personagem vivendo naquele mundo. Ela pode ter um discurso que não coincide com aquele do personagem, mas o critica e o transforma – é o discurso indireto livre. Durante o filme, os dois discursos (do personagem e do filme) coexistem. Para que isto ocorra, é necessário que o espectador nunca se esqueça de que está assistindo a um filme, que não se esqueça da história que é contada, que permanentemente tenha consciência da presença da câmera. Desta forma, o cinema de poesia multiplica os efeitos de ruptura, quebrando a gramática clássica do cinema e desestabilizando as expectativas do espectador. Como na sequência do Sermão da Montanha, onde o espectador é “acordado” e impedido de se identificar em função da sucessão de planos (começando de dia, passando para a noite e terminando de dia). 

Bouquet sugere que o emprego do zoom é o que mais claramente demonstra a existência de uma consciência estética do filme independente da consciência do personagem. O zoom é a câmera funcionando, é um poder autônomo em relação a Cristo. Ela pode decidir se aproximar quando o personagem permaneceu imóvel. Este poder da câmera, este gosto dela pelo mundo, é na verdade a disposição do cineasta. No cinema de poesia a noção de personagem é retrabalhada, como condição para que essa dupla consciência surja. O personagem, no sentido clássico do termo (cujas ações são orientadas para a resolução de conflitos objetivos: salvar a pele; reconquistar quem se ama; vingar seus filhos, enriquecer, etc.), não deve mais impressionar o espectador. Pasolini identificou o discurso indireto livre em Antonioni, Godard e Bertolucci, insistindo no fato de que os personagens deles são neuróticos. Bouquet explica que Pasolini sugeriu isso porque o personagem neurótico de certa forma justifica o discurso duplo. Citando O Cinema de Poesia, Bouquet conclui: 

“(...) Existe o mundo filmado (real) onde [o neurótico] vive e aquilo que ele percebe, deformado por sua neurose, sua loucura. É de certa forma essa ‘loucura’ do personagem que apoia a câmera e seus distúrbios. Por exemplo, segundo Pasolini, a insistência sobre detalhes, assim como a duração dos planos em Antonioni, testemunha ‘a tentação de fazer outro filme’, sobre o filme real. Deixar surgir outro mundo, exterior à intriga, e que vem da cabeça do personagem neurótico que é, no fundo, o representante ‘das próprias experiências vitais’ do cineasta. Isso significa que Cristo também, para Pasolini, é um personagem neurótico? Talvez não. Mas isso significa certamente que o Cristo não se reduz a seu nome de Cristo, que ele também é uma existência múltipla, que encarna algumas das experiências vitais do cineasta e escritor Pasolini” (34)


Exceto por pequenas correções gramaticais, Arcaísmo e Cinema no Evangelho de Pasolini foi publicado originalmente na Revista Universitária do Audiovisual, da Universidade Federal de São Carlos (RUA/UFSCar), São Paulo, em 15 de janeiro de 2011.

Leia também:

Notas:

1. BOUQUET, Stéphane. L’Évangile Selon Saint Matthieu. Paris: Cahiers du Cinéma/Scérén-CNDP, 2003. P. 39.
2. STEIMATSKY, Noa. Italian Locations. Reinhabiting the Past in Postwar Cinema. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2008. P. 206n3.
3. Idem, pp. 120-1.
4. Ibidem, p. 207n7.
5. Ibidem.
6. BOUQUET, Stéphane. Op. Cit., p. 60.
7. STEIMATSKY, Noa. Op. Cit., p. 126.
8. Idem, pp. 122, 126 e 128.
9. Ibidem, pp. 127-8, 208n14.
10. Ibidem, pp. 132-3.
11. Ibidem, pp. 133-4.
12. BOUQUET, Stéphane. Op. Cit., pp. 72-3.
13. STEIMATSKY, Noa. Op. Cit., pp. 160-4 e 215n54.
14. Idem, 164.
15. Ibidem, p. 215n56.
16. “Pasolini está, certamente, familiarizado, com a formulação de Dante do quarto sentido de leitura no Convívio 2.1.6.: ‘O quarto sentido é chamado anagógico, isto é, transcendendo os sentidos (...)”. STEIMATSKY, Noa. Ibidem, pp. 215-6n57.
17. STEIMATSKY, Noa. Ibidem, p. 165.
18. Ibidem, pp. 137 e 209-10n26.
19. VIANO, Maurizio. A Certain Realism: Making Use of Pasolini’s Film Theory and Practice. Berkeley: University of California Press, 1993. Citado em Steimatsky, Noa, Ibidem, p. 210n30.
20. STEIMATSKY, Noa. Ibidem, pp. 143-4 e 212n40.
21. SITI, Walter; ZABAGLI, Franco (Eds) Pier Paolo Pasolini per il Cinema. Milano: Mondadori, 2 vols. 2001. Vol. 2, pp. 2768, 2771.
22. STEIMATSKY, Noa. Op. Cit., p. 213n41.
23. BOUQUET, Stéphane. Op. Cit., pp. 42 e 45-6.
24. Idem: p. 49.
25. STEIMATSKY, Noa. Op. Cit., pp. 149-52 e 214n49.
26. Idem, pp. 154, 214n49; PASOLINI, Pier Paolo. Empirismo Eretico. Milão: Garzanti, 2000 [1972]. O artigo Cinema de Poesia, constante desta coletânea está datado de 1965. P. 185.
27. SITI, Walter; ZABAGLI, Franco. Op. Cit., p. 2899.
28. DUFLOT, Jean. Il Sogno del Centauro. Roma: Editori Riuniti, 1982. P. 89. Citado em BERTELLI, Pino.  Pier Paolo Pasolini. Il Cinema in Corpo. Atti Impuri di um Eretico. Roma: Edizioni Libreria Croce, 2001. P. 89.
29. BERTELLI, Pino. Op. Cit., p. 219.
30. STEIMATSKY, Noa. Op. Cit., pp. 156-8.
31. Idem, p. 214n51.
32. BOUQUET, Stéphane. Op. Cit., pp. 46-7.
33. Idem, p. 49.
34. Ibidem, pp. 50-1.

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