Melhor visualizado com Mozilla Firefox (resolução 1024x768/fonte Times New Roman 16)

-

Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

15 de jul de 2008

Antonioni e o Vazio Pleno


“Antonioni é pintor
no sentido de que para ele
o preto, o branco, o cinza, as
diversas cores do espectro, não
são apenas fatores ornamentais, atmosféricos ou emocionais do
filme, mas verdadeiras idéias,
que absorvem os personagens
e os acontecimentos”
(1)

Em A Noite (1961) (ao lado) os personagens jogam a si mesmos num tabuleiro de xadrez gigante formado pelo quadriculado no chão da sala. O branco conota a falta, o desafeto, o vazio que habita os personagens de Antonioni. Na Trilogia da Incomunicabilidade a pesquisa das formas utiliza como pretexto um lugar amoroso ou afetuoso que escapa, seja por não ser encontrado (A Aventura [1960], O Eclipse [1962]), seja por esgotar-se (A Noite). Uma escapada que parece contaminar a narrativa com um inacabamento essencial.

O desafeto dos protagonistas se parece com os locais que percorrem com seu desencanto. Espaços desertos, desorganizados, nada familiares, que testemunham uma mutação da paisagem urbana no início dos anos 60 do século 20. Os grupos que eles freqüentam são reflexos de seu universo mental decomposto.

Mas Antonioni não é nostálgico como Fellini ou Visconti, não está em busca de um lugar perdido no passado. Pelo contrário, ele possui um interesse positivo por esses desertos, esses espaços amorfos, desconectados, vazios; tecido indiferenciado da mutação urbana. (ao lado, A Noite)

“Os personagens de Antonioni são, no limite, atraídos pelo vazio, pelo frio, espaços abstratos que absorvem e engolem a figura humana, o rosto amado, as formas do semelhante. A aventura que eles vivem é um desaparecimento”. (2)

Enquanto cineasta, Antonioni é um pintor de enquadramentos insólitos e não-narrativos. Ao contrário de Eisenstein, Antonioni não persegue uma “imagem total aonde viriam se arrumar os elementos fragmentários” (3). Em A Aventura, quem desaparece não é apenas Anna. É seu próprio desaparecimento que desaparece. É o desaparecimento do desaparecimento. Muitos dos filmes de Antonioni giram em torno de uma investigação a respeito de algo que desaparece, inclusive a própria trama tende ao desaparecimento.

O desaparecimento de Anna é uma metáfora do próprio desaparecimento de cada um pela fragmentação: os personagens não encontram mais seus próprios pedaços. Antonioni nos mostra um mundo despedaçado, onde seus personagens renunciam à tarefa de recolher os pedaços. É como se o quebra-cabeça desfeito fosse preferível à sua reconstituição. Não se trata mais de encontrar o rosto da pessoa amada ao final, ou a verdade oculta. A fragmentação do mundo não permite que subsista a unicidade necessária de sentimentos para tal, ou a crença numa verdade.

Antonioni é um pintor moderno, ele se interessa por manchas, por formas nascidas do acaso – o mesmo acaso ao qual lançam a si mesmos os personagens em A Noite, na sala-tabuleiro de xadrez. O diretor italiano fotografou e ampliou algumas de suas pinturas que não apreciava muito. Surpreendeu-se com o resultado, agora elas não pareciam ter sido obra sua. Seguindo um processo similar ao abordado em seu filme Blow Up, Antonioni cria uma série que chama de Montanhas Encantadas. (ao lado e abaixo)

O processo consiste na ampliação das imagens. “A ampliação revela detalhadamente os elementos invisíveis da imagem original. (…) Além do que, este processo resulta uma experiência muito interessante para mim como diretor, já que jamais havia imaginado que faria parte do mundo da arte, porque não podia dizer a forma de arte que podia destinar a estes objetos” (4). A ampliação fotográfica destas imagens apontou o caminho do cinema para Antonioni.

Seus personagens têm fascinação pelo disforme, pela figura que se esconde, que se apaga ou escorrega para o indiferenciado. Mas as manchas também significam criação de uma figura singular, ainda que informe e sem nome. “Como não ver, nesse caráter ‘informe e sem nome’, a própria aventura, o destino desejado e realizado dos heróis antonianos?” (5)


Trata-se do eclipse dos personagens, dissolvidos no vazio dos locais da cidade e no anonimato, assim como na noite que tudo envolve. Mas o vazio antonioniano subsiste positivamente, prenhe de presenças. Quando os personagens dos filmes de Antonioni desaparecem, abrem caminho ao espaço puro. O campo vazio está repleto de presenças, rostos e movimentos. Este vazio “representa o ponto final do ser enfim liberado da negatividade dos projetos, das paixões, da existência humana” (6).

Notas:

Leia Também:

Ettore Scola e o Milagre em Roma
Ettore Scola e o Filme Dentro do Filme
Mussolini e a Sombra de Auschwitz

1. BONITZER, Pascal. Peinture et Cinema. Décadrages. Paris: Cahiers du Cinéma/Éditions de l’Étoile, 1995. P.97.
2. Idem, p.98.
3. Ibidem, p. 83.
4. CHATMAN, Seymor; Duncan, Paul (ed.). Michelangelo Antonioni. Filmografia Completa. Köln: Taschen, 2004. P.151.
5. BONITZER, Pascal. Op. Cit. , p. 101.
6. Idem.

Sugestão de Leitura

Ettore Scola e o Milagre em Roma

Mais um filme que dialoga com o cinema e a política da península Sob a Cúpula de São Pedro Estamos numa favela de Roma na década...

Postagens populares (última semana)

Quadro de Avisos

Salvo quando indicado em algum ponto da página ou do perfil, este blog jamais foi patrocinado por ninguém e não patrocina nada (cursos, palestras, etc.), assim como jamais "doou" artigos para sites de "ajuda" a estudantes - seja no passado, presente ou futuro. Cuidado, não sejam enganados por ladrões da identidade alheia.

e-mail (no perfil do blog).
....

COMO CITAR ESTE BLOG: clique no título do artigo, verifique o link no alto da tela e escreva depois do nome do autor e do título: DISPONÍVEL EM: http://digite o link da página em questão ACESSO EM: dia/mês/ano

Marcadores

1900 (3) 8 1/2 (21) A Aventura (17) A Classe Operária Vai ao Paraíso (2) A Doce Vida (37) A Estrada (11) A Maldição do Demônio (2) A Morte (2) A Noite (17) A Ricota (7) A Terra Treme (11) A Tragédia de um Homem Ridículo (1) A Vida é Bela (3) A Voz da Lua (6) Abismo de Um Sonho (4) Accattone (17) Agência Matrimonial (2) Além das Nuvens (1) Amarcord (15) Amor e Raiva (2) Angelina a Deputada (1) Anno Unno (2) Ano Zero (9) Antes da Revolução (4) Antonin Artaud (2) Antonio Pietrangeli (1) Antonioni (58) Aquele que Sabe Viver (5) Arroz Amargo (7) As Mãos Sobre a Cidade (2) Barbara Steele (2) Barthes (6) Bazin (5) Belíssima (1) Benigni (3) Bertolucci (28) Bicicleta (10) Blow Up (14) Buñuel (4) Burguesia (18) Cabíria (12) Cadáveres Ilustres (2) Camponeses (3) Cardinale (9) Casanova de Fellini (3) Cavani (5) Censura (10) Cidade das Mulheres (17) Cinecittá (3) Cinecittà (6) Cinema de Poesia (3) Cinema Paradiso (7) Cinema Político (10) close (11) Comédia Italiana (5) Comencini (3) Comunismo (24) Consumo (10) Damiano Damiani (1) Dario Argento (1) De Santis (6) De Seta (2) De Sica (30) Decameron (5) Deuses Malditos (4) Divórcio à Italiana (1) doença de Eros (2) Dois Destinos (1) Dublagem (4) E La Nave Va (4) Édipo Rei (11) Ekberg (9) Ensaio de Orquestra (6) Entrevista (3) Era Uma Vez na América (1) Era Uma Vez no Oeste (7) Ermanno Olmi (2) espaguete (8) Europa 51 (9) Expressionismo Abstrato (3) Fascismo (36) Favela (3) Fellini (81) Feminismo (3) Francesco Rosi (8) Freud (14) Gaviões e Passarinhos (5) Gelsomina (9) Gente del Po (3) Giallo (1) Gilles Deleuze (3) Ginger e Fred (5) Giulietta Masina (5) Giuseppe Ferrara (2) Glauber Rocha (7) Godard (10) Gramsci (6) Hitchcock (1) Hitler (12) Hollywood (44) Holocausto (7) Homossexualidade (11) Igreja (10) Il Provino (2) Ingrid Bergman (6) Investigação de Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (2) Irmãos Taviani (2) Judeu (4) Julieta dos Espíritos (8) Jung (5) Kapò (1) Kieslowski (2) Kurosawa (3) La Luna (4) Lacan (2) Ladrões de Bicicleta (2) Lattuada (5) Leone (12) Lollobrigida (11) Loren (14) Mãe (13) Magnani (9) Malena (2) Mamma Roma (19) Marco Bellocchio (2) Marilyn Monroe (6) Mario Bava (2) Marxismo (4) Mastroianni (15) Medéia (7) Melodrama (3) Milagre Econômico (21) Mito da Caverna (1) Monicelli (8) Morte em Veneza (1) Mulher (27) Mulheres e Luzes (2) Mussolini (39) Nazi-Retrô (2) nazismo (10) Neo-Realismo (55) Noites de Cabíria (14) Nosferatu (3) Nudez no Cinema (3) O Bandido Giuliano (4) O Carteiro e o Poeta (2) O Caso Mattei (2) O Conformista (6) O Deserto Vermelho (15) O Eclipse (22) O Gato de Nove Caudas (1) O Grito (8) O Leopardo (1) O Milagre (7) O Ouro de Roma (1) O Pássaro das Plumas de Cristal (1) O Teatro e Seu Duplo (1) O Último Imperador (6) O Último Tango em Paris (4) Obsessão (6) Os Banqueiros de Deus (1) Os Boas Vidas (7) Os Palhaços (2) Os Sonhadores (2) Pai (5) Pai Patrão (1) Paisà (23) Partner (4) Pasolini (73) Pasqualino (2) Peplum (5) Petri (3) Pietro Germi (2) Pocilga (8) Poesia (3) Pontecorvo (7) Por Uns Dólares (3) Pornografia (9) Profissão Repórter (15) Prostituta (15) Psicanálise (12) Quando Explode a Vingança (1) Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza (1) Realismo Poético Francês (1) Religião (11) Risi (6) Rocco e Seus Irmãos (11) Rogopag (3) Roma Cidade Aberta (28) Rossellini (56) Rosto (4) Sade (3) Salò (11) São Mateus (5) Satyricon de Fellini (4) Scola (14) Seduzida e Abandonada (2) Silvana Mangano (19) Stefania Sandrelli (2) Stromboli (11) televisão (4) Teorema (15) Terrorismo (8) Tornatore (9) Três Homens em Conflito (2) Trilogia da Incomunicabilidade (11) Trilogia da Salvação (2) Trilogia da Solidão (2) Trilogia da Vida (12) Trilogia do Caráter (2) Trilogia do Homem sem Nome (2) Trilogia dos Bichos (1) Trilogia dos Dólares (2) Truffaut (7) Umberto D (5) Verão Violento (5) Viagem à Itália (10) Visconti (48) Vitimas da Tormenta (4) Vitti (4) Wertmüller (5) Zabriskie Point (9) Zavattini (10) Zurlini (13)

Minha lista de blogs

Visitantes

Flag Counter
Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-No Derivative Works 3.0 Brasil License.