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Roberto Acioli de Oliveira

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31 de jul. de 2016

A Saga de Ladrões de Bicicleta


“(...) Uma vez mais,  De Sica  enfoca a
relação entre crianças e adultos (...)” (1)

A Massa e a Roda

Antonio Ricci está desempregado há dois anos quando finalmente consegue uma vaga como colador de cartazes, na condição de que possua uma bicicleta para se locomover pela cidade por conta própria. Aceitou o trabalho mesmo sem ter uma bicicleta, teve de empenhar a sua, já que estava sem dinheiro para alimentar a família. Sua esposa vende os lençóis e conseguem o dinheiro para comprar a bicicleta. No caminho do trabalho, ele deixa seu filho, Bruno, no posto de gasolina, onde o menino trabalha. Logo no primeiro dia, o pior acontece. Quando a bicicleta é roubada durante o trabalho de Ricci, ninguém na rua o ajuda ou parece se importar – nota-se que existe uma máfia de roubos de bicicletas protegendo os ladrões, roubando e revendendo. Faça sol ou chuva, Ricci e Bruno perambulam por toda Roma à procura dela. Em determinado momento, irritado com a situação Ricci dá um tapa na cara do menino, que chora e tenta se afastar do pai, mas isso não dura muito tempo.A seguir, Ricci deixa o filho esperando sozinho numa ponta e volta desesperado imaginando que ele teria se afogado no rio. Aliviado, leva Bruno para comer num restaurante. O garoto fica comparando sua refeição, uma pizza e uma garrafa de vinho, com a mesa do lado, onde a família rica faz um banquete.


 “(...) Já se chamou a atenção para o papel da criança no neorrealismo, 
 especialmente   com   De Sica   (e,  depois,  na  França,   com  Truffaut): 
é que,  no mundo adulto, a criança é afetada por uma certa impotência
motora,   mas   que   aumenta   sua   aptidão    a    ver    e    ouvir    (...)” 

Gilles Deleuze (2)

Ricci havia desdenhado a atitude de sua esposa, que voltou a ela agradecer por uma vidente ter previsto o novo emprego de seu marido. Para ele, que insistiu que foi ele quem conseguiu o emprego com o próprio esforço, isso significava mais dinheiro gasto inutilmente, já que a mulher não adivinhava nada sem cobrar. No desespero, Ricci acabará pagando a vidente para lhe ajudar a encontrar a bicicleta – não sem antes furar a fila para falar logo com ela. Embora o ladrão seja localizado logo a seguir, Ricci será derrotado pela proteção da vizinhança do meliante, o que convence as pessoas de que Ricci está apenas sendo desumano. Fica uma impressão, mas não dá para saber se o meliante apenas simulou um ataque epilético para se fazer de vítima e se alguns de seus defensores são da tal máfia. De qualquer forma, embora saibamos quem roubou a bicicleta, Ricci não consegue convencer ao policial de que identificou o ladrão certo. Em desespero, aquele pai dá dinheiro para o filho voltar para casa de ônibus e tenta roubar uma bicicleta. Ao contrário de quando teve sua bicicleta roubada, uma multidão que parece querer fazer justiça com as próprias mãos o persegue e o captura. A horda enfurecida o solta depois que o pequeno Bruno, que perdeu o ônibus, intercede aos prantos pela vida do pai humilhado. No início da história, Antonio surge da massa de gente desempregada. No final, juntamente com seu filho, desaparece na mesma massa.

Uma Trilogia para Vittorio 


Críticos  franceses  de  cinema, como Raymond Borde
e André Bouissy, preferiam se referir a um cinema social
italiano, ao invés de utilizar o termo “Neorrealismo” (3) 

Em os anos de 1946 e 1952 do século passado, o ator e cineasta italiano Vittorio De Sica realizou três filmes, respectivamente, Vítimas da Tormenta (Sciuscià, 1946), Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette, 1948) e Umberto D (1952). Alguns autores reúnem estes títulos sob o epíteto de Trilogia da Solidão, onde isolamento e alienação do ser humano no seio de uma coletividade (que se autoproclama solidária, sempre, porque humana) é considerado um problema maior e independente da resolução das limitações materiais (desemprego crônico, déficit habitacional) pelos quais passam os protagonistas dos três filmes - não se inclui aqui Cuore, filmado na mesma época de Ladrões de Bicicleta, e Milagre em Milão (Miracolo a Milano, 1952). De Sica resume o antídoto para resolução desses males com apenas duas palavras: amor e solidariedade de sua família, e seu filho em particular. O cineasta, que sempre suspeitou da facilidade com que atores profissionais transitam de uma emoção para outra, optou por trabalhar com dois garotos amadores como protagonistas em Vítimas da Tormenta – um deles, Franco Interlenghi (1931-2015), chegou às mãos de De Sica aos quinze anos de idade, posteriormente vindo a se tornar ator de sucesso e escritor -, repetindo a dose em Ladrões de Bicicleta. A dupla que encarnou Antonio Ricci, o pai, e Bruno, o filho, foi cuidadosamente selecionada em função de maneirismos particulares em seu caminhar e suas expressões faciais – Bondanella observa que seria da responsabilidade profissional de De Sica que seus atores amadores tenham atingido um grau de competência que os levou a superar o nervosismo dos atores e atrizes não profissionais que trabalharam para Roberto Rossellini e Luchino Visconti (4).


O momento em que Antonio e Bruno chegam à feira de Roma
onde peças roubadas de bicicletas  são  vendidas para seus antigos
donos,    gera   uma   sensação   kafkiana  envolvendo    os  esforços
infrutíferos para resolver  o  problema  do  roubo  da  bicicleta

Peter Bondanella (5)

Para Bondanella, apesar de seu lugar na trilogia indicar uma interpretação, a mensagem de Ladrões de Bicicleta é mais problemática do que parece. A opinião tradicional sugere que se trata de um filme político que articula uma apresentação de problemas sociais urgentes com a denúncia implícita de um sistema econômico em particular. Contudo, uma análise mais detalhada revela que este é apenas mais uma dentre várias interpretações plausíveis, já que o filme pode também ser considerado como uma visão pessimista e fatalista da condição humana, assim como uma parábola filosófica a respeito da insensatez, solidão e isolamento. Em Ladrões de Bicicleta, a solidariedade da massa é posta em cheque. No início do filme, Antonio emerge da massa numa agência de emprego. Quando o filme termina ele volta a sumir dentro dela com seu filho, que pouco antes havia impedido que o pai fosse destruído por ela em nome da justiça. Multidões de pessoas aparecem como forças mais ameaçadoras do que tranquilizadoras, o que leva Bondanella a concluir que não se trata de um filme que retrata a solidariedade proletária ou a consciência de classe. Quando Antonio consegue o emprego, tudo que o desempregado ao lado deseja é tirá-lo dele. Quando pede ajuda ao ter a bicicleta roubada, recebe pouca ou nenhuma atenção ou solidariedade. Será ameaçado por multidões nos pontos de ônibus e quando quase foi linchado ao ser apanhado roubando uma bicicleta. Ao mesmo tempo, ele será ignorado pela multidão quando pediu ajuda ao ter sua bicicleta roubada. Bondanella ressalta que, embora a situação de Antonio também não seja compreendida por burocratas, policiais e frequentadores da igreja, o pior é perceber a falta de solidariedade por membros de sua própria classe. Na opinião de Bondanella, no universo de De Sica, as soluções econômicas são incapazes de curar aquilo que não o que é sem sentido absurdo na condição humana.

“O filme que parece melhor personificar a maioria ou todos os preceitos para um cinema realidade no período pós-guerra é Ladrões de Bicicleta, de De Sica. Neste filme, o ambiente conforma e em última instancia determina o destino de um personagem. O trabalhador desempregado, Ricci, é um protagonista neorrealista clássico: Quase toda a força patética dramática é derivada desse simples fato que sem a bicicleta ele vai perder seu emprego de pregador de cartazes obtido arduamente; e, sem seu emprego, sua família será condenada a uma existência de privações numa Itália com desemprego generalizado e ainda atolada nos efeitos colaterais da desastrosa guerra que acabara de perder. Em resumo, as condições materiais de Ricci determinam sua natureza; e uma vez que ele é típico dos trabalhadores do período anterior ao boom econômico que impulsionou a Itália para as fileiras dos maiores poderes industriais, o indivíduo desafortunado de De Sica que perde sua bicicleta pode ser considerado um tipo social, figura típica de uma classe inteira. Presumivelmente, depois de assistir Ladrões de Bicicleta, os entusiastas do Neorrealismo supõem que as plateias dariam ouvidos à mensagem ideológica implícita de que uma drástica mudança social era necessária na Itália. Afinal, até um crítico não marxista como André Bazin [(1918-1958)] afirmou, [em O Que é Cinema? (vol. II, 1959)], que o filme foi o ‘único filme comunista válido realizado na última década... a tese implícita é admirável e escandalosamente simples: no mundo em que esse trabalhador vive, para sobreviver os pobres precisam de roubar uns dos outros’” (6)


 A profundidade de campo extrema acentua o isolamento de Ricci. 
O     próprio     enredo,     assim     como     a      qualidade     evocativa
da  trilha  musical,  sublinha  o  caráter    ilógico   de   seu   mundo

Peter Bondanella (7)

Senhora Santo, a vidente, centraliza os elementos irrealistas do filme. Primeiro a esposa de Antonio Ricci faz uma visita a ela para agradecer a previsão de que o marido arrumaria um emprego. Antonio reclama e diz que foi ele mesmo quem conseguiu. Desde o início, portanto, a questão do destino está posta – será que Antonio está realmente no controle de sua vida? Se antes ele não aceitava, agora em desespero Antonio vai à busca da senhora vidente para que ajude a encontrar a bicicleta, recebendo uma profecia: irá encontrá-la imediatamente ou nunca irá achá-la. Logo que sai da casa dela, ele encontra o ladrão. O tempo do filme corre de sexta-feira para domingo, cujas ressonâncias na cultura italiana apontam não apenas para a morte e ressurreição de Cristo, mas também para a jornada de Dante através do inferno, purgatório e paraíso em direção à salvação. A bicicleta de Antonio é da marca Fides (“fé”, em latim), transformando numa ironia sua incapacidade de encontrá-la. De alguém que possui uma bicicleta, se transforma em alguém que as rouba – mas um ladrão incompetente, o que talvez aponte para sua salvação! 

“(...) Poucas vezes um filme de pretensões supostamente realistas foi caracterizado por uma conclusão mais problemática e ambivalente. De um ponto de vista positivo, Ricci coloca sua fé num objeto, uma bicicleta Fides, a perde e apenas então percebe que sua verdadeira riqueza está no amor de seu filho, uma emoção humana. Na melhor das hipóteses, a questão da mudança social é solicitada. De um ponto de vista pessimista, contudo, a afeição de Bruno não resolve nada, a vida continua trágica e absurda, e a odisseia desesperada de Ricci através de Roma em busca de sua bicicleta termina com o triunfo do destino e do acaso, sem que a possibilidade da mudança social seja sequer sugerida” (8)

A Potência do Vencido


A  invasão  da  produção  estrangeira  incomodou  (incomoda?)
os  magnatas  de  Hollywood.  Acostumados a ditar regras, depois
da  guerra  impuseram  seus  filmes  mundo afora através de uma
política de Estado deliberada, mas isso não funcionava em casa 

Procurando explicar a eclosão do Neorrealismo numa Itália que ainda procurava se reerguer dos escombros que a Segunda Guerra Mundial espalhou em seu território, o filosofo francês Gilles Deleuze observou a incapacidade daquele que é considerado o grande vencedor, os Estados Unidos, em aceitar que naquele momento não era ele (com sua Hollywood) quem “fazia cinema”. Certos críticos norte-americanos, explica Deleuze, viram no Neorrealismo a “pretensão desmedida de um país vencido, uma chantagem odiosa, uma maneira de cobrir os vencedores de vergonha”. “Oriundo de uma parte da América, haverá sempre um rancor contra o neorrealismo italiano que ‘ousa’ instaurar outra concepção de cinema. O escândalo de Ingrid Bergman apresenta também esse aspecto: transformada em filha adotiva da América [a atriz nasceu na Suécia], ela não abandona simplesmente sua família por Rossellini, ela abandona o cinema dos vencedores” (9). Ainda que partindo de suas preocupações em relação ao limbo em que os filmes lentos são relegados pela indústria e pelo público (embora muitos filmes neorrealistas possam ser encaixados aqui), Ira Jaffe toca exatamente nesse ponto delicado tanto para o cinema mundial quanto para o mercado norte-americano que foi o imediato pós-guerra:

“(...) O relatório de A. O. Scott, O Mundo Inteiro está Assistindo, Por Que os Americanos Não? [New York Times, 21 de janeiro de 2007] observa que plateias para filmes lentos, tanto quanto para outros cinemas de arte internacionais, diminuiu nos Estados Unidos. Em sua opinião o público dos Estados Unidos nem conhece nem se importa com grandes artistas de cinema e o ‘fermento cinematográfico criativo’ ao redor do globo. Além disso, não apenas o ‘público de massa’ parece alheio ou indiferente, mas também ‘o segmento intelectualmente curioso, esteticamente aventureiro, que historicamente estava lá para os filmes estrangeiros’. Presumivelmente, foi essa plateia aventureira nos Estados Unidos ao final da Segunda Grande Guerra que se virou para aplaudir filmes estrangeiros posteriormente citados por Deleuze como exemplo da imagem-tempo em alguns aspectos: filmes neorrealistas italianos de Vittorio De Sica e Roberto Rossellini, por exemplo, e filmes do indiano Satyajit Ray e do japonês Ozu (...)” (10)


“[Getlein] cumprimentou Burstyn como importador de bons
filmes  de  países  católicos, e criticou os Cavaleiros de Colombo
por  intimidar  um  cinema  em  Queens  para  suspender  Ladrões
de   Bicicleta   porque   –   os   Cavaleiros   disseram   ao   gerente
em  13  de  fevereiro  –  este  filme  ‘glorificava  um  ladrão’” (11)

  Frank Getlein foi crítico de cinema e escreveu a citação na edição de 22/05/1951, de Catholic Messenger. 
Cavaleiros  de  Colombo é uma ordem de cavalaria,  considerada a maior organização católica do mundo

Referindo-se especificamente a Ladrões de Bicicleta, a explicação de William Bruce Johnson é mais objetiva. Ele identificou tentativas de se utilizar o aparato de censura vigente nos Estados Unidos da década de 1940 para dificultar a entrada do cinema estrangeiro (o neorrealista em particular) no mercado norte-americano. Joseph Burstyn, então distribuidor nos Estados Unidos dos filmes de Rossellini, Roma, Cidade Aberta, Paisà e O Milagre, e De Sica, Ladrões de Bicicleta, sofreria os mais variados tipos de pressão para que os filmes fossem retirados do mercado ou sequer exibidos. Desde os órgãos oficiais de censura à Legião da Decência, passando pela Suprema Corte do país, tudo foi feito para que a exportação não se concretizasse. Em tempos de Guerra Fria e Macarthismo, apesar do catolicismo oficial italiano servir como passaporte de entrada nos Estados Unidos, na própria Itália a Igreja Católica se encarregava de dificultar as coisas, seja porque o filme de De Sica era por demais crítico em relação à sociedade de mercado ou, simplesmente porque Rossellini havia se declarado publicamente um comunista. Hollywood ficou suficientemente impressionada com Vítimas da Tormenta para premia-lo com um Oscar “Especial” em 1947, nove anos antes que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas criasse a categoria “Melhor Filme em Língua Estrangeira” – foi quando Burstyn sentiu-se encorajado a importar Ladrões de Bicicleta. Em virtude do prêmio, Hollywood se aproximou de De Sica durante a produção deste filme, mas o cineasta italiano recusou o dinheiro norte-americano, porque o papel do protagonista teria de ser dado ao ator Cary Grant. Sabemos que De Sica escolheu o metalúrgico, um ator não profissional (12).

“Na prática, nos filmes que [Cesare Zavattini] fez em colaboração com De Sica, a presença dos não atores será uma constante, até que surgem interesses de produção e de mercado e são obrigados a realizar filmes como Quando a Mulher Erra (Stazione Termini, 1953) e O Ouro de Nápoles (L’Oro di Napoli, 1954). Antes de Quando a Mulher Erra, o produtor norte-americano  Solznick havia-se interessado em financiar Ladrões de Bicicleta, desde que o papel principal fosse confiado a Cary Grant. A preferência de De Sica recaiu sobre Henry Fonda, cuja participação o produtor [Giuseppe Amato] vetou. Não tendo encontrado nenhum interprete apropriado entre os atores italianos, sua escolha acabou recaindo sobre Lamberto Maggiorani, um operário romano. (...) Em relação ao protagonista do filme, falou-se também em Jean Gabin e Marcello Mastroianni, que não teria interpretado o papel por ter sido considerado jovem demais. No caso de Henry Fonda, parece que o cachê estipulado pelo ator correspondia exatamente ao dobro das verbas disponíveis para a realização do filme” (13) (imagem abaixo, a cena de Bruno prestes a mijar gerou reclamações do orgão censor nos Estados Unidos)


Embora os filmes italianos não fossem capazes de falir os estúdios
 norte-americanos,  constituíam  um  choque   adicional  nas  receitas. 
No final, foi  a  chegada  da  televisão  nos  lares  dos  Estados Unidos
que   fechou   cinemas   e   derrubou   o   monopólio  de  Hollywood

Ladrões de Bicicleta também ganharia em 1949 o mesmo Oscar “Especial” de Vítimas da Tormenta, mas não receberia o selo que significa aprovação para importação – ganharia também como melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro. Sendo assim, através do censor Joseph Breen, Hollywood conseguiu ao mesmo tempo premiar um filme e proibir sua distribuição nos Estados Unidos! 

“Breen exigiu com êxito a supressão de alguns quadros revelando os genitais de um garotinho em Roma, Cidade Aberta, e o breve frontal total de dois garotos tomando banho em Vítimas da Tormenta. Agora ele queria cortar de Ladrões de Bicicleta uma pequena cena na qual o garoto, de costas para nós, está quase urinando numa parede, e outra onde o herói corre dentro de um bordel enquanto as funcionárias, totalmente vestidas, estão tomando café da manhã. De Sica respondeu a essas demandas por cabo: ‘Sejamos francos. Existe mais sexo neste filme ou no filme americano comum...? Permita-me recordar que a nobre cidade religiosa de Bruxelas, Bélgica, cujo emblema é um garoto nas mesmas circunstancias, cuja estátua fica numa de suas praças’” (14)

A opção de Burstyn foi apresentar Ladrões de Bicicleta num circuito alternativo de filmes de arte com uma versão sem cortes enquanto a questão ainda não estivesse resolvida – já havia feito isso, para tentar forçar uma decisão a favor do filme, em relação ao caso de Roma, Cidade Aberta. Mas não adiantou, nem quando a Legião da Decência liberou a obra (ainda que com um “B”) como “aceitável”, assim como os censores dos Estados de Ohio, Pensilvânia e Nova York. Burstyn chegou a colocar um anúncio no jornal onde um garotinho implorava para que o público não permitisse que fosse cortado do filme. Tudo isso só serviu para enfurecer Breen. Foi então que Burstyn mandou uma carta a ele sugerindo que deve haver outro motivo qualquer para não liberar um filme como Ladrões de Bicicleta. Johnson concluiu que Burstyn havia injetado competição naquilo (o mercado norte-americano) que até aquele momento era um monopólio. Os filmes extraordinários que distribuía, concluiu Johnson, tendo repetidamente levado críticos norte-americanos a zombar do caráter insípido e inferior da produção doméstica de Hollywood. Portanto, na mesma época em que o governo dos Estados Unidos estava desmantelando o monopólio de Hollywood e as plateias cada vez mais ficando em casa para ver televisão, Burstyn acusava a indústria daquilo que os meios oficiais identificaram anos antes: a utilização do escritório de Joseph Breen para bloquear a competição externa, evitando que ao público fossem ofertadas novas perspectivas artísticas. De Sica chegou a contatar Breen admitindo o corte da cena do bordel, contanto que se mantivesse o menino mijando (imagem acima). A essa altura, já em outubro de 1950, Burstyn conseguiu que mais cinemas apresentam a versão sem cortes. Esta foi o tipo de guerra particular enfrentada para ser aceito no mercado externo (no caso e no momento, os Estados Unidos, não só o mais cobiçado como basicamente o único, enquanto Hollywood inundava o mercado europeu destruído pela guerra com seus filmes). Mas o cinema italiano já tinha grandes inimigos em casa mesmo:

“(...) Nos anos [1950], a censura, secundada pela Democracia-Cristã e pelo Vaticano, será a grande inimiga do cinema italiano engajado. Os ataques do subsecretário Andreotti a Umberto D, a negação do visto de exportação para filmes como Ladrões de Bicicleta e Anni Facili [(dirigido por Luigi Zampa,1953)], com a alegação de que roupa suja se lava em casa, os conselhos ‘amigáveis’ a modificar tal cena ou a arquivar tal roteiro, o corte de subvenções, serão alguns dos golpes desferidos contra o cinema italiano ainda identificável com o Neorrealismo. Ao clamoroso caso da prisão de Renzo Renzi e Guido Aristarco, respectivamente acusados de terem escrito e publicado no nº 4 de Cinema Nuovo (01.02.1953) uma artigo no qual se propunha a realização de um filme sobre as proezas amorosas dos soldados italianos enviados a ocupar uma aldeia grega reduzida à miséria, seguir-se-á, em 1954, uma caça às bruxas dentro da indústria cinematográfica italiana. Agencias noticiosas e periódicos como Epoca, L’Europeo e Il Mondo dedicam-se a descobrir infiltrações comunistas e a elaborar listas de todos os simpatizantes da esquerda. Escandalosa, também, será a intervenção da Democracia-Cristã no Festival de Veneza de 1954, onde a maioria dos jurados é comprada a fim de que o prêmio destinado a Sedução da Carne [(Senso, direção Luchino Visconti)], cujo autor era declaradamente comunista, fosse atribuído a Romeu e Julieta [(Giulietta e Romeo, direção Renato Castellani )] (...)”(15)

Não é Preciso ser Ideológico para ser Político (e vice-versa)


Ladrões de Bicicleta está incluído entre os 15 títulos
que compõem a categoria “valores”, editada pelo Conselho
Pontifício  do  Vaticano  para  Comunicação  Social (16)

Maurizio Fantoni Minnella caracteriza o Neorrealismo como terceiro elo de uma corrente que, também composta por antifascismo e movimento de resistência contra o nazifascismo, capturou a formação de uma nova Itália que deveria ter surgido após a Segunda Guerra Mundial e o fim da experiência de vinte anos do governo de Benito Mussolini - o ventennio fascista. De acordo com Minnella, as histórias que Roberto Rossellini narrou em filmes como Roma, Cidade Aberta (1945) e Paisà (1946) contêm o germe de uma tomada de consciência em relação aos princípios de liberdade, democracia e direito que constituem as bases da futura república – com o referendo de 1946, o Reino da Itália se torna República. Contudo, ainda segundo a interpretação de Minnella, os primeiros sinais da ilusão de democracia são representados por uma espécie de continuidade institucional entre o velho sistema de censura fascista e aquele do novo regime político de orientação democrata-cristã. Minnella ilustra a questão citando a sequencia de projeção de Ladrões de Bicicleta num cineclube em Nós que nos Amávamos Tanto (C’Eravamo Tanto Amati, direção Ettore Scola, 1974). Depois da projeção, o professor Palumbo investe contra o reitor do ginásio, porta voz de um grupo de democrata-cristãos que demonizam o filme por mostrar para o mundo uma Itália repleta de mazelas sociais e citam a frase de Giulio Andreotti (referido apenas como alguém de futuro, “vizinho [ao político] De Gasperi”): “roupa suja se lava em casa”. Intervindo em favor do reitor, o farmacêutico afirma que o professor Palumbo “fomenta o ódio social”. Palumbo, que sonha com uma revista que se chamaria “cinema como cultura”. Sustenta seu ponto e sua dignidade vociferando ferozmente, apenas para ser demitido pelo reitor do ginásio – a esposa do professor, que com uma criança no colo havia se emocionado com o filme, diz que ele deve escolher entre os ideais e a família.  

“(...) Desse modo, [Palumbo] denuncia o clima de conformismo cultural que brotou na Itália pós-fascista de regime Democrata-Cristão [...]. Portanto, ainda nos anos 1960 uma obra emblemática como Ladrões de Bicicleta podia suscitar indignação e reprovação por parte desse segmento da Itália definido como ‘catofascista’. O mesmo ocorre com Umberto D, que quando surgiu provocou a indignação do senhor Giulio Andreotti, então subsecretário no Ministero dello Spettacolo, o qual pronunciou a fatídica frase supracitada. A solidão e a indigência, na qual vive o ancião protagonista, foi descrita por De Sica como uma condição objetiva, presente no país real (...)” (17).


Entre 1948-1949, Ladrões de Bicicleta já não interessava mais
ao público italiano, alcançando apenas o 11º lugar. Na moda, estavam
 dramas sentimentais, filmes históricos, operísticos e cômicos (18)

É preciso ter em mente que os filmes de cunho neorrealista não resumem o cinema italiano do imediato pós-guerra e muito menos o cinema italiano em geral – erro recorrente entre críticos, especialistas e livros da história do cinema que identificam o entre guerras na Alemanha apenas com o Expressionismo, ou o Brasil da década de 1960 apenas com o Cinema Novo. Equívoco recorrente, que talvez tenha origem em interesses mercadológicos, o Neorrealismo respondia apenas por uma fração do mercado daquele país - e isso se considerarmos somente a época em que estrearam. Dos cerca de 822 filmes produzidos na Itália entre 1945 e 1953, apenas em torno de 90 (um pouco mais de 10%) poderiam ser considerados neorrealistas, e a percentagem não melhora se nos limitarmos aos 244 produzidos entre 1945 e 1948. Portanto, conclui acertadamente Peter Bondanella, é um equivoco identificar a produção do cinema italiano no pós-guerra com o Neorrealismo. É ainda mais curioso descobrir que as grandes obras primas do período raramente estavam entre os filmes mais populares distribuídos. Enquanto Roma, Cidade Aberta alcançou o primeiro lugar na bilheteria em 1945-6, apesar do sucesso relativo de Paisà (nono lugar em 1946-7), Em Nome da Lei (In Nome della Legge, direção Pietro Germi) o décimo primeiro lugar entre 1948-9 e Arroz Amargo (Riso Amaro, Giuseppe De Santis) o quinto lugar em 1949-50, a maioria dos citados noventa filmes neorrealistas, incluindo alguns dos melhores, foram grandes fracassos de bilheteria. O Neorrealismo jamais chegou a capturar a massa do público italiano e sempre foi identificado com o mercado do filme de arte – e o mercado de exportação também não rendeu tanto, apesar do sucesso internacional (19). A abordagem de Minnella pode ser relativizada, considerando que nem só da estética neorrealista vive o anseio de liberdade e democracia do povo italiano.


“De  Vittorio  De  Sica,  gostei  muito  de  Vítimas  da  Tormenta, 
Umberto  D    e    Ladrões  de  Bicicleta,   em   que   ele   conseguiu
transformar     um     instrumento    de    trabalho    numa    estrela. 
Foi um homem que conheci e de quem me senti muito próximo” 

Luis Buñuel (20)
Depois da queda do Fascismo, outra coisa que não mudou na Itália foi o código de censura, aprovado pela Assembleia em 1947. Sob o controle direto da presidência do Conselho e do Ministério do Interior, os filmes poderiam ser denunciados por magistrados, padres, grupos paroquiais, funcionários municipais, escritórios de turismo e toda pessoa capaz, segundo a lei de 1923, de encontrar cenas, fatos e temas que ofendam o pudor, os bons costumes e a moral. Característico do tipo de contexto social e político que baliza a censura de então foi o comentário do embaixador da Itália na Índia: “Quando cessará a exportação de filmes como Vítimas da Tormenta, Ladrões de Bicicleta e Roma, Cidade Aberta, que oferecem uma imagem deplorável da Itália no estrangeiro?” (21).

“(...) Os democrata-cristãos que se instalam no poder em 1947 possuem a tendência a ver comunistas ou anticlericais em toda parte. Entre maio de 1947 e abril de 1962, 5000 filmes são submetidos à censura, dos quais 1569 [...] são barrados, cortados ou proibidos aos menores de 16 anos. Indulgentes no imediato pós-guerra, o censores se enfureceram após a viagem do democrata-cristão De Gasperi aos Estados Unidos. Tudo é bom para combater a União Soviética e os cineastas capazes de propagar a ideologia marxista ou uma moral anticatólica. Sua intransigência forçará os produtores a modificar os roteiros antes da filmagem, de maneira a evitar os prejuízos econômicos. A censura encontra ainda um meio de impor de forma oblíqua seus pontos de vista, sem traços oficiais. Trabalha por pressão, em relação aos financiadores, a imprensa, as associações bem intencionadas e as autoridades da Segurança Pública, que endossam a responsabilidade das apreensões, cortes e interdições. Exemplo desta hipocrisia generalizada, desta repressão disfarçada: o artigo de Giulio Andreotti em Libertas, que atacou Vittorio De Sica, denunciou sua visão negativa, pessimista, da sociedade italiana em Umberto D, sublinhando que o cineasta é um gênio e desejando que doravante assine obras impregnadas de um ‘otimismo são e construtivo’. De Sica respondeu a ele no mesmo tom, respeitosamente, que a censura desempenha uma tarefa útil e que na Itália ela é exercida com particular sabedoria e moderação!” (22)

Crianças De Sica


Enquanto Antonio se transforma num ladrão de bicicleta, Bruno
passa  de  filho  dependente para alguém de quem o pai depende

Peter Bondanella (23)

Em Nós que nos Amávamos Tanto podemos encontrar mais uma referência a Ladrões de Bicicleta. O cinéfilo Nicola participa de um famoso show de perguntas e respostas na televisão italiana, Lascia o Raddoppia, onde é questionado quanto ao motivo do choro do garoto no final do filme de De Sica. Nicola explica que o cineasta havia colocado bitucas de cigarro no bolso do menino e depois o acusou de tê-las roubado. O apresentador afirma que ele está errado e dá a resposta correta: o garoto viu seu pai sendo preso por roubar uma bicicleta. Anos depois, Nicola assiste ao próprio De Sica contar como fez para o garotinho chorar, e a explicação foi a mesma do cinéfilo! (24). Desde A Culpa dos Pais (I Bambini ci Guardano, 1944) que enquanto diretor De Sica se preocupava com a sorte dos jovens, posteriormente ela apenas se desloca do ambiente pequeno-burguês para o popular. Sempre com a ajuda do roteirista Zavattini, filmes característicos dessa abordagem, como Vítimas da Tormenta, no qual a infância daqueles meninos-engraxates sucumbe frente ao egoísmo e indiferença dos adultos, mas não renuncia a seus ideais de amizade e solidariedade, numa Itália devastada física e moralmente pela guerra – este filme será determinante para a representação da infância no cinema. Como declarou três décadas depois de realizar o filme: “Os sciuscià davam-me a medida da destruição moral do país” (25). O cineasta francês François Truffaut se mostrou refratário ao que chamava de “efeito lacrimejante”, o qual de acordo com Nicholas Livecchi foi inaugurado pela relação entre o menino e o cavalo branco de Crina Branca: O Cavalo Selvagem (Crin Blanc: Le cheval sauvage, direção Albert Lamorisse, 1953) (26) – um nicho que, no cinema atual, parece bastante consolidado. Irritado com o pieguismo de Lamorisse, Truffaut disparou numa crítica em 1956: 

“O menino terá obrigatoriamente alguma coisa de animal e o animal alguma coisa de infantil. Proponho: o lapãozinho que perde a rena branca e após reavê-la, apesar dos malvados exploradores polares, desaparece na neve no pescoço do animal. Ou ainda: o brasileirinho a quem soldados rasgaram o saco de café. O café se espalha no mar e o menino, mergulhando, desaparece para recuperar grão a grão seu pequeno tesouro. E ainda teria mais: o chinesinho que perde o paganismo, o pequeno poulbot [neologismo francês para cartazes apresentado caricaturas de crianças] que perde as calças, mas isso já é fantasia demais para Lamorisse” (27)


Em  1948,  um tal de François Truffaut ainda estava no reformatório
 quando respondeu o questionário a respeito de Ladrões de Bicicleta 
para o distribuidor Francês. Como prêmio, ganhou uma bicicleta (28)

Essa longa tradição de associar uma criança e um animal foi execrada por Truffaut, que abraçou a mutação instalada no cinema através advento do neorrealismo, ao qual aderiu imediatamente. Segundo Livecchi, em matéria de atuação, a utilização dos dois garotos que atuaram em filmes como Alemanha Ano Zero (Germania Anno Zero, direção Roberto Rossellini, 1948) e Ladrões de Bicicleta inovou em pelo menos dois pontos: além da alardeada utilização de não atores (crianças como adultos), o foco passa a recair em certas partes do corpo, ao invés da atuação do ator. A criança ator se reduz a um rosto impassível em Rossellini ou, como escreveu Andre Bazin em O Que é Cinema? (1958), “um rosto preocupado, reflexivo, inquieto talvez, mais de quê? (...) É apenas que os signos da atuação e da morte podem ser os mesmos no rosto de uma criança, os mesmos ao menos para nós que não podemos penetrar seu mistério”. Em relação à De Sica, a criança ator se reduz a um enfoque. Ainda segundo Bazin, De Sica estava mais interessado na maneira de caminhar da criança do que nos ensaios de atuação. O trote do menino, a harmonia desse desacordo é de uma importância capital para a inteligência de toda a encenação. 

“O filme de De Sica encontra uma teoria que já deu suas comprovações: a união adulto/criança: [Nas palavras de Pol Vandromme] ‘é, em primeiro lugar, o filme de uma infância impotente. O garoto, a exemplo de seu pai, não escapa a essa fatalidade que sufoca, que aniquila todos os esforços. Ele não pode nada e sabe disso. O drama ao qual está ligado acontece independentemente dele. Quando ele entra em cena, tudo está consumado; a mecânica infernal foi posta em movimento e nada pode detê-la. É um espectador; é um testemunho’. De Sica já havia utilizado o recurso da criança testemunha num filme anterior, A Culpa dos Pais, mas numa tonalidade nitidamente mais melodramática, com muitos closes nas lágrimas da criança. Ladrões de bicicletas marca uma ruptura (a criança continua espectadora, mas não é mais vítima), transformando a figura da criança testemunha numa figura chave do cinema, da qual encontramos ecos em [Ingmar] Bergman (Fanny e Alexander, 1982), [Emir] Kusturica (Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios, [Otac na sluzbenom putu], 1985), ou [Luigi] Comencini (A História, [La Storia], 1985). Este último, em memória da relação pai/filho de Ladrões de Bicicleta, além disso confiará um papel a De Sica em sua versão de Pinóquio e Suas Aventuras ([Pinocchio], 1972)” (29)

Alguns Rastros da Bicicleta


“(...)  Na  Índia,  certos  filmes  como  Ladrões de Bicicleta  causarão
profunda impressão sobre os cineastas de Bollywood que, por sua vez,
propiciarão lugar de destaque para as crianças em seus filmes (...)” (30)

Em 1950, o cineasta indiano Satyajit Ray (1921-1992) esteve em Londres e assistiu a noventa e nove filmes. Descobrir Ladrões de Bicicleta foi como uma revelação para ele, tanto que decidiu tornar-se um diretor de cinema. Posteriormente, descreveria seu cinema como se estivesse se referindo ao filme de De Sica. Em relação à Cesare Zavattini, o roteirista que além de figura central do Neorrealismo realizou muitas parcerias com De Sica, o cineasta indiano elogiou a capacidade de compreensão do ser humano e também sua mestria ao conseguir encaixar uma história dentro dos noventa minutos característicos do cinema comercial. O enredo simples garante o tratamento intensivo, enquanto toda uma série de situações verossímeis, e personagens interessantes sustentam o interesse. A vida cotidiana, disse ele, é o melhor caminho para um cinema popular. O cineasta indiano, concluiu Satyajit, deve voltar-se para a vida, para a realidade. De Sica, e não DeMille deve ser seu ideal. Ladrões de Bicicleta influenciou profundamente o primeiro filme de Satyajit, A Canção da Estrada (Pather Panchali, 1955). Compreender a maneira como De Sica manobrou o pai em Ladrões de Bicicleta (e não o filho) ajudou, segundo o próprio Ray, a lhe dar confiança para dirigir seu ator mirim. Embora nem todos os atores em A Canção da Estrada fossem inexperientes, Ray admitiu sentir-se melhor como não atores (31). Da mesma forma que De Sica foi pressionado pelo governo italiano (“roupa suja se lava em casa”), Ray será pressionado pelas autoridades bengalis, que financiaram A Canção da Estrada, para não mostrar um retrato tão negativo da miséria na Índia – uma forma velada de censura. O cineasta recusou, e foi apenas em função da intervenção pessoal do Primeiro Ministro de então, Jawaharlal Nehru, que o filme pode sair do país para ser apresentado no Festival de Cannes, em 1956 (32).


Ladrões de Bicicleta é uma espécie de consciência ou superego
de uma psique coletiva em torno de certos filmes e cineastas (33)

Originalmente, no roteiro de Nós que Nos Amávamos Tanto, filme realizado por Ettore Scola, Nicola teria sido o personagem central e o tema o lugar de Ladrões de Bicicleta na psique coletiva do cinema italiano – apenas posteriormente o roteiro final desenvolveu as três vias entrelaçadas que levariam do final da guerra até meados dos anos 1970, restando a citação do filme de De Sica e uma dedicatória a ele. Como Nicola que perseguia De Sica e implicitamente o reprovava por seus deslizes no comercialismo, Ladrões de Bicicleta serve como uma espécie de consciência cinematográfica, um momento edênico de perfeita inocência e plenitude contra o qual todos os cineastas subsequentes parecem ter apostado. Para Millicent Marcus, quando Bruno segura a mão de seu pai no final de Ladrões de Bicicleta, num gesto sublime de aceitação e amor, pode ter sinalizado, nas palavras de Bazin em O Que é Cinema?, o “desespero diante de um paraíso perdido” ao nível narrativo, mas também a criação de um Éden cinematográfico - uma “Era Dourada do cinema neorrealista”, de acordo com Nicola no final da exibição do filme de De Sica no cineclube de sua cidade natal,  causando a ira de seu patrão, que o demitiu do cargo de professor (34). Desta forma, segundo Marcus, através de Nicola e sua obsessão, Scola traduziu uma espécie de “topos Ladrões de Bicicleta”, um “lugar comum”, um “tópico”, em relação ao qual os cineastas procuram se aproximar ou distanciar – uma citação dentro dos filmes e/ou nos títulos; em todo caso, sempre tendo aquele filme como referência, passando a incluir até mesmo filmes anteriores ao movimento neorrealista. No roteiro original de Scola, Nicola seria...

“um professor do interior que, depois de ter participado da Resistência [durante a guerra], impressionou-se com Ladrões de Bicicleta durante uma exibição no cineclube de sua cidade. Abandonou seu trabalho, sua família e veio para Roma tentar encontrar De Sica. O filme era para ser exclusivamente a história de uma longa busca por [De Sica] durante trinta anos. O personagem seguia De Sica e se tornava para ele uma verdadeira obsessão. Constantemente De Sica o encontrava e o homem o confrontava com problemas morais, problemas de consciência. De Sica, como sabemos, produziu de forma intercalada grandes obras e trabalhos medíocres nos quais trabalhou como ator. Havia, então, esse ‘Grilo Falante’, essa consciência que o seguia, o repreendia, perseguia, e o filme acabava com a mesma frase [proferida por Nicola] que continuou na versão definitiva [durante a fala de De Sica no estádio]: ‘achávamos que mudaríamos o mundo, mas foi ele que nos fez mudar’” (35)


No primeiro e único cartaz colado por Ricci, vemos Rita Hayworth
 em   Gilda.    As   três   únicas   mulheres    de    Ladrões  de  Bicicleta, 
 se não consideramos a correria no bordel,   são  bem  diferentes  dela: 
a  dedicada   esposa   de   Ricci,   a   vidente   e   a   mãe   do   ladrão
Em 1989, o cineasta italiano Maurizio Nichetti revisitou Ladrões de Bicicleta com Ladrão de Sabonete (Ladri di Saponette), mais um exemplo de filme dentro do filme, onde o cineasta utiliza também uma série de clichês neorrealistas. Um cineasta, de nome Nichetti, é entrevistado num programa de televisão (por um crítico de cinema real) que a seguir exibirá seu filme, Ladrão de Sabonete. Como as propagandas dos intervalos começam a invadir o filme, o diretor se vê obrigado a entrar no filme para tentar corrigir o problema. Um filme dentro do filme acompanha uma família, composta pela mulher grávida, o marido e suas crianças, eles assistem na televisão ao filme de Nichetti. No filme que passa dentro da televisão, cujo enredo é uma paródia do criticismo neorrealista, um trabalhador desempregado, Antonio Piermattei, rouba um lustre (não uma bicicleta) em seu primeiro dia de trabalho – ele tem uma esposa e dois filhos pequenos. Com um enredo que se encaixa perfeitamente na propaganda social de esquerda, segundo o roteiro de Nichetti, o ladrão deveria sofrer um acidente e o filho pequeno transforma a bicicleta numa cadeira de rodas para o pai, enquanto a esposa acaba na prostituição. Ao invadir seu próprio filme, Nichetti explica tudo isso para o pequeno Bruno, que responde que seu pai está bem de saúde. “Na distância que separa a família que assiste à televisão em Ladrão de Sabonete e a família de subsistência de Ladrões de Bicicleta, Nichetti concentra a força da sátira social do filme” (36). 


Para Antonioni, Ricci pertence a uma época do cinema italiano
em que não era necessário penetrar no íntimo do personagem, apenas
perceber seu vínculo com a sociedade. Tal fase, afirmou em 1961, deve dar lugar agora à exploração da vida interior do personagem (37)

Na opinião de Bondanella, o aspecto mais interessante do filme de Maurizio Nichetti é que ao invés de utilizar fragmentos de imagens de Ladrões de Bicicleta ele monta seu próprio clássico neorrealista, que será constantemente mutilado pela interrupção dos comerciais. O título, que fala de um ladrão de sabonete, aponta para trás (remetendo ao filme de De Sica) e para frente (na direção dos infinitos comerciais de sabão e detergente veiculados pela televisão) (38). Millicent Marcus observa correspondências entre O Ladrão de Crianças (Il ladro di bambini, 1990), do italiano Gianni Amélio, e Ladrões de Bicicleta, Vítimas da Tormenta e um filme mais antigo (anterior ao fim da guerra) de De Sica, A Culpa dos Pais – embora também inclua ecos de Paisà, de Rossellini, e A Aventura (L’Avventura, 1960), de Michelangelo Antonioni. Muitas são as referências ao Neorrealismo, movimento ao qual Amelio se sente diretamente ligado. Neste filme, o que se rouba são crianças e o cineasta investiu muito tempo procurando o casal de crianças ideal – depois de procurar na periferia de Milão e Turim, no norte do país, rumou para o sul, onde encontrou Giuseppe Ieracitano nas ruas de Reggio Calabria e Valentina Scalici em Palermo (39). “As acusações arrebatadoras de De Sica em relação às instituições no pós-guerra – a Igreja, a lei, a família burguesa, os sindicatos – encontra sua contrapartida de 1990 no levantamento de Amelio quanto à incapacidade institucional de aliviar o drama das crianças (...)” (40).
Na sequência final de O Ladrão de Crianças, depois de vários dias em que estiveram juntos, sendo levados de um lado para outro pelo policial, a pequena Rosetta caminha até Luciano e coloca o casaco sobre os ombros dele para protegê-lo do frio da manhã, senta-se ao lado dele (ainda não tão próxima a ponto de formar uma unidade acolhedora) e fala da possibilidade de que haja um campo de futebol na instituição que os acolherá e então ele poderá jogar. Na opinião de Marcus, aquelas crianças descobriram como realmente se relacionar. Embora Bondanella veja em O Ladrão de Crianças uma crítica à utilização otimista de crianças para sinalizar esperança de renovação social (41), é o próprio Gianni Amelio quem sugere que é como se o pequeno Luciano tivesse compreendido com a aceitação do gesto maternal de sua irmã que agora que, o policial vai sair de suas vidas, a solidão poderá ser aliviada pela solidariedade.

“Nesta pequena esperança, este lampejo de renovação, Amelio alinha seu final com o de grandes neorrealistas cujas cáusticas críticas sociais não vinham sem o acompanhamento do fermento da promessa humanista. Roma, Cidade Aberta, de Rossellini, terminou com a marcha das crianças ativistas de volta a Roma, lapidados pelo espetáculo do martírio de Don Pietro e prontos para iniciar o difícil trabalho de reconstrução. No final de Ladrões de Bicicleta, Bruno recuperou o chapéu de seu pai e pegou a mão do homem, num gesto supremo de aceitação e solidariedade. Os trabalhadores do arroz absolvem Silvana simbolicamente, cuja traição do coletivo foi expiada por seu suicídio na conclusão de Arroz Amargo, de De Santis. Com este espírito, ‘Rosetta conclui meu filme com um gesto de afeto e solidariedade infinita, até maternal, em relação a seu irmão’, [confirma Gianni Amelio]. ‘A mudança pode também [estar aqui]’” (42)


Leia também:

A Ideologia, a Mulher e o Cinema na Itália
Roberto Rossellini, a Virgem e a Censura
Ettore Scola e o Milagre em Roma

Notas:

1. BONDANELLA, Peter. Italian Cinema. From Neorealism to the Present. New York /London: Continuum, 3ª Ed, 2008. P. 55.
2. DELEUZE, Gilles. Cinema II. A Imagem-Tempo. Tradução Eloísa de Araújo Ribeiro. São Paulo: Brasiliense, 1990. P. 12.
3. FABRIS, Mariarosaria. O Neo-Realismo Cinematográfico Italiano. São Paulo: Edusp, 1996. P. 129.
4. BONDANELLA, Peter. 2008. Op. cit., pp. 75-63.
5. Idem, p. 60.
6. BONDANELLA, Peter. The Films of Federico Fellini. New York: Cambridge University Press, 2002. Pp. 45-6.
7. BONDANELLA, Peter. 2008. Op. cit., p. 60.
8. Idem, p. 62.
9. DELEUZE, Gilles. Cinema 1. A Imagem-Movimento. Tradução Stella Senra. São Paulo: Brasiliense, 1985. P. 259n17.
10. JAFFE, Ira. Slow Movies. Countering the Cinema of Action. London & New York: Wallflower Press, 2014. Pp. 8-9.
11. JOHNSON, William Bruce. Miracles & Sacrilege. Roberto Rossellini, the Church, and Film Censorship in Hollywood. Toronto, Buffalo, London: University of Toronto Press Incorp., 2008. P. 298.
12. Idem, pp. 198-202.
13. FABRIS, Mariarosaria. Op. cit., p. 83, 105n65.
14. JOHNSON, William Bruce. Op. cit., p. 198-9.
15. FABRIS, Mariarosaria. Op. cit., p. 157n38.
16. JOHNSON, William Bruce. Op. cit., p. 357.
17. MINNELLA, Maurizio Fantoni. Non Riconciliati: Política e Società nel Cinema Italiano dal Neorealismo a Oggi. Torino: UTET Libreria, 2004. P. 12.
18. FABRIS, Mariarosaria. Op. cit., p. 132.
19. BONDANELLA, Peter. 2008. Op. cit., p. 35.
20. BUÑUEL, Luis. Meu Último Suspiro. Tradução de André Telles. Rio de Janeiro: Cosac Naify, 2009. P. 313-4.
21. DOUIN, Jean-Luc. Dictionnaire de la Censure au Cinéma. Paris: Quadrige/Puf, 2001. P. 263.
22. Idem, p. 266.
23. BONDANELLA, Peter. 2008. Op. cit., p. 61.
24. Idem, pp. 371-2.
25. FABRIS, Mariarosaria. Op. cit., p. 110n81.
26. LIVECCHI, Nicolas. L’Enfant Acteur. De François Truffaut á Steven Spielberg e Jacques Doillon. Bruxelles: Les Impressions Nouvelles, 2012. Pp. 27-9.
27. TRUFFAUT, François. Os Filmes de Minha Vida. Tradução Vera Adami. São Paulo: Editora nova Fronteira, 1989. Pp. 256-7.
28. BAECQUE, Antoine; TOUBIANA, Serge. François Truffaut. Paris: Gallimard, édition revue, 2001. P. 73.
29. LIVECCHI, Nicolas. Op. cit., p. 28.
30. Idem, pp. 30-1.
31. ROBINSON, Andrew. Satyajit Ray, The Inner Eye: The Biography of a Master Film-Maker. London/New York I.B. Tauris, 2004. Pp. 72, 78.
32. DOUIN, Jean-Luc. Op. cit., p. 342.
33. MARCUS, Millicent. After Fellini: National Cinema in the Postmodern Age. Johns Hopkins University Press, 2002. P. 214.
34. Idem, pp. 214-5, 343n2.
35. Ibidem, p. 214.
36. Ibidem, p. 225.
37. ANTONIONI, Michelangelo. A Talk With Michelangelo Antonioni on His Work. In:: COTTINO-JONES, Marga (Ed.). Architecture of Vision. Writings and Interviews on Cinema. USA: University of Chicago Press, 1996. Pp. 22-3.
38. BONDANELLA, Peter. 2008. Op. cit., p. 349.
39. MARCUS, Millicent. Op. cit., pp. 154, 337n15, 339n48.
40. Idem, pp. 155-6.
41. Ibidem, p. 339n47.
42. Ibidem, pp. 176-7.

29 de mai. de 2013

As Crianças Neorrealistas de Vittorio De Sica







A tragédia
da inocência da 
infância, corrompida
pelos    delírios
dos adultos







 
Traídos Pela Realidade 

A ambição de Giuseppe e Pasquale não é muito grande, eles desejam ardentemente comprar um cavalo. Contudo, tal desejo se torna um tanto quanto fora de propósito quando percebemos que aqueles garotos são apenas mais duas cabeças anônimas que ganham a vida como engraxates numa Itália caótica logo após o término da Segunda Guerra Mundial – a enorme quantidade de meninos que vivem de pequenos bicos na rua como eles faz lembrar certos países latino-americanos. Naquela época, as ruas do país estavam cheias de soldados norte-americanos, cujas botas eram lustradas por esses garotos. Certo dia, Giuseppe e Pasquale são induzidos pelo irmão mais velho deste e seu comparsa a vender cobertores roubados do Tio Sam. Logo são apanhados e levados ao reformatório (imagem abaixo), aonde irão se juntar a uma multidão de outros garotos que lá se encontram pelos mais variados motivos (imagem acima; à esquerda, Pasquale). Os dois amigos serão separados logo na chegada, mas manterão seu vínculo de amizade – especialmente o trato de não entregarem os verdadeiros ladrões dos cobertores. A vida naquele lugar é dura, mas a solidariedade entre os pequenos estranhos é mais forte do que as disputas entre eles (por espaço, comida, liderança). Temendo serem descobertos, os verdadeiros ladrões (que eram adultos, constatação que novamente faz lembrar a situação latino-americana) concluíram que os dois garotos deveriam ser bem tratados. Mandam muita comida para Giuseppe, que prontamente a dividirá com seus parceiros de cela.



Crianças em situação de risco alimentar e psicológico. 
Seria mais um clichê do cinema se não fosse algo
melancolicamente recorrente na sociedade


Numa tentativa de resolver a questão, um funcionário do reformatório simula que está dando uma surra de cinto em Giuseppe, levando Pasquale a delatar os nomes dos receptadores de material roubado. A partir daí Giuseppe se sente traído pelo amigo (ele não compreende que Pasquale foi enganado) e começa a se ligar a um garoto com ficha criminal. Pasquale briga com esse novo colega de seu ex-amigo, depois de feri-lo será mandado para a solitária – Giuseppe e Pasquale serão condenados, respectivamente, a um e dois anos de prisão. Embora Pasquale tenha se envolvido numa briga no reformatório, quando nos deparamos com o indolente defensor público designado para defendê-lo (sem falar da conduta do advogado contratado pela família de Giuseppe, que sugeriu que o menino acusasse Pasquale) concluímos que De Sica pretendia dizer alguma sobre o sistema jurídico italiano. Durante uma seção de cinema no reformatório, Giuseppe consegue fugir com alguns de seus companheiros de cela - na confusão, um dos companheiros de cela de Pasquale morre pisoteado (no comentário do médico, “não havia nada a fazer”, subjaz a constatação de que todos aqueles outros meninos já estejam mortos também, é tudo uma questão de tempo). A essa altura, os dois velhos amigos já haviam se reconciliado, o que não impediu que Pasquale avisasse aos policiais que sabia para onde os fugitivos iriam. Pasquale os levou direto para o local onde, com o dinheiro ganho na dos cobertores, estava o cavalo que havia finalmente comprado com Giuseppe. Enquanto os policiais socorrem o funcionário da estrebaria, Pasquale corre pela estrada até encontrar Giuseppe seguindo a cavalo com seu colega de cela, que acaba fugindo. Pasquale resolve dar uma surra de cinto em seu pequeno amigo, que ao tentar se esquivar cai da ponte de morre. Pasquale vai às lágrimas, enquanto os policiais acompanham de longe e o cavalo volta sozinho para a estrebaria.

Cinema Burguês do Povo da Rua? 




“(...)    Não    tenho
outro   desejo   senão
ser    aquilo      que    fui
e  que  sou.  É  uma aspiração
 despretensiosa, dirão vocês...
 mas eu sou um burguês.
 Um   burguês   como 
  tantos. Boa noite” 

Vittorio De Sica (1)



O ano era 1946, a Segunda Guerra Mundial havia terminado há mais ou menos um ano, a Itália estava um caos em vários sentidos. Boa parte do país em ruínas, após vinte anos de Fascismo as instituições políticas começam a oscilar entre esquerda e direita, ao sabor da nova guerra dos vencedores (a Guerra Fria), a infra-estrutura italiana se dobrava a desordem urbana em função do grande fluxo de migração interna (especialmente a partir do sul do país) na direção dos grandes centros industrializados. O Neorrealismo no cinema italiano floresceu nos primeiros anos do pós-guerra mostrando a situação dos italianos para eles mesmos – em pouco tempo deixariam de se interessar pela miséria que já podiam ver muito bem fora das telas. Vittorio De Sica (1901-1974), ator já fazia muito tempo, começa a trabalhar como diretor ainda durante o Fascismo. Roberto Rossellini, por outro lado, foi direto para trás das câmeras, chegando a realizar trabalhos importantes para o cinema que, tecnicamente interessantes ou não, foram utilizados como filmes de propaganda do regime de Mussolini. Muitos daqueles que farão seus nomes nas próximas décadas do pós-guerra já estavam trabalhando, de uma maneira ou de outra, para Mussolini. Naturalmente, a crítica social que se verificaria no neorrealismo do imediato pós-guerra não estava presente no realismo ao estilo do Fascismo. (imagem acima, à esquerda, o refeitório do reformatório; abaixo, à direita, a mãe de Giuseppe)



“No que diz respeito
às datas fundamentais do
 neorrealismo, se 1945 marca  
sua  revelação,  1946   já   o   vê
transformado    numa    etiqueta; 
se   em   1948  atinge  seu   ápice, 
em    1949    já   está   reduzido  a 
uma   fórmula  e  não  consegue 
sobreviver    além    de    1955- 
1956, anos em que o cinema
italiano       passa       por 
    uma profunda crise” (2)




Foi neste contexto que Vittorio De Sica realizou Vítimas da Tormenta (Sciuscià, 1946) nas ruas de Roma (3). Em sua pareceria com Cesare Zavattini, roteirista do filme, De Sica teria de amadurecer por mais quatro trabalhos (entre 1940 e 1942, ainda sob a vigência do Fascismo) até que com A Culpa é dos Pais (I Bambini ci Guardano, baseado no romance Pricò [1924], de Cesare Giulio Viola, 1944) surgisse uma oportunidade de maior engajamento moral com a realidade. Zavattini, o grande teórico do Neorrealismo, já vinha desde 1935, com o roteiro de Darò un Milione (direção Mario Camerini), delineando muitas das características mais evidentes nos filmes neorrealistas: senso de humor e interesse por aqueles que não tiveram sorte na vida (4). Segundo a versão do próprio Vittorio De Sica: “(...) A guerra acabou. Acabou a guerra e começou outro período triste, o pós-guerra e o fenômeno triste e cotidiano, um espetáculo muito doloroso, o dos engraxates. Nasceu em nós o desejo de contar a verdade. Sem que soubéssemos, pensávamos no Neorrealismo, estávamos criando o Neorrealismo. O Rossellini por um lado e eu e Zavattini, por outro. Muitos dizem que o Neorrealismo foi uma necessidade nossa de economizar, de gastar pouco. Não é verdade. Foi mesmo a necessidade de contar a verdade, de ter a coragem de contar a verdade e de levar a câmera, não para as velhas construções da Cinecittà feitas de papel machê, mas para a vida, para a realidade” (5). (imagem abaixo, os dois serão colocados em celas diferentes, parece ter sido a primeira vez que se separaram)



A      distância      atravessada      por      Rossellini 
ou   De   Sica    desde    Paisà   e   Vítimas    da    Tormenta 
não  é  tão  grande  quanto  alguns  críticos  acreditam,  sendo mais 
uma mudança de grau do que de tipo. La Macchina Ammazzacattivi 
(1952), do primeiro, e Milagre em Milão (Miracolo a Milano, 1951), do segundo, marcam claramente as fronteiras externas do movimento neorrealista italiano, uma vez que empurram a dialética do
 realismo e da ilusão até quase o ponto de ruptura (6)


Esse interesse pelos despossuídos o levaria a estabelecer uma oposição simplista entre ricos e pobres. O levaria também a cultivar o “mito do pobre”, alguém cuja riqueza espiritual será a maior arma contra uma sociedade corrompida - a descoberta das pessoas comuns do dia-a-dia, que agora passam ao primeiro plano. Assim Mariarosaria Fabri definiu o trabalho de Zavattini, mas alertou ainda que os pobres de Zavattini pobres fossem, na verdade, os pequenos-burgueses. Fabri citou o comentário de Eugenio Curiel a respeito do primeiro livro de Zavattini, I Poveri sono Matti (1937). O livro transferia para o proletariado as tensões e inquietações da pequena-burguesia, ao mesmo tempo mascarando os verdadeiros problemas dos pobres e reforçando a imagem que dela havia criado o regime fascista de Mussolini (vigente na Itália entre 1922 e 1943; em Salò entre 1943 e 1945). Essas idéias estarão presentes nos roteiros que escreverá durante a colaboração com De Sica. De acordo com Fabri, a simbiose entre os dois atingirá um grau tão elevado que será difícil saber qual deles tem maior responsabilidade pelos resultados. Fabri cita também as opiniões de Ermanno Comuzio e do crítico brasileiro Paulo Emílio Salles Gomes. Para o primeiro, a ligação entre Zavattini e De Sica representou o encontro da consciência de classe e do sentimentalismo, em prejuízo da primeira. Para o segundo, a carreira de De Sica está sob o signo da simpatia e da mediocridade, embora Salles Gomes tenha admitido que a ambiguidade desses termos. Fabri posiciona os pontos de vista de Zavattini e Roberto Rossellini em campos opostos no que diz respeito ao Neorrealismo. Citando Roma, Cidade Aberta (Roma Città Aperta, 1945), Fabri sugere que Rossellini foi capaz de efetuar um procedimento expressivo (o cineasta não se resumia a “olhar em volta”, mas se pautava por “como olhar”), em contraposição ao procedimento moral ou ideológico ao qual Zavattini pretendia reduzir a postura neorrealista:

“A modernidade formal de Rossellini, em relação a outros realizadores neorrealistas, pode ser constatada, por exemplo, num rápido confronto entre os dois que tiveram crianças como protagonistas: de um lado Alemanha Ano Zero, de outro, Vítimas da Tormenta, cujo argumento é de Zavattini, o qual, apesar de propugnar um cinema renovado em seu conteúdo e, logo, em sua técnica, continuou preso a uma rigorosa concatenação dos fatos que levava a uma empatia imediata entre o público e os protagonistas. Se em Vítimas da Tormenta, De Sica-Zavattini permeavam o filme de pieguismo, na acusação que moviam ao mundo dos adultos em particular e, consequentemente, à sociedade como um todo, em Alemanha Ano Zero, Rossellini, ao contrário, acompanhava com austeridade formal e isenção de arbítrio o itinerário percorrido por Edmund num cenário que carregava, de forma reflexa, a destruição moral que deveria ter caracterizado o protagonista. Em resumo, enquanto De Sica-Zavattini se valiam de uma retórica patética para denunciarem fatos candentes, Rossellini reduzia o enredo a um mero pretexto dentro do qual a personagem se movia, sem que o espectador fosse solicitado a julgar” (7) (abaixo, a fuga de Giuseppe)



A maior parte das cenas que 
o    cinema    italiano    ambientou    em 
prisões  foi  filmada  no  antigo  reformatório 
do Instituto San Michele, em Trastevere, 
próximo   à   Porta   Portese (8)


Em 1943 Luchino Visconti filmou Obsessão (Ossessione), prenúncio do neorrealismo, ainda sob os auspícios do regime fascista – “Isso não é a Itália”, frase famosa pronunciada pelo contrariado filho de Mussolini, a quem a administração da Cinecittà respondia diretamente. Todo o problema (para os fascistas) era o adultério encenado no filme e incentivado justamente pela esposa, apresentando uma mulher italiana para as italianas que era completamente distinta do modelo de mulher italiana/fascista que o regime sempre propagou (dona de casa, dócil, parideira). No ano seguinte, De Sica voltaria ao tema do adultério com A Culpa é dos Pais, com a diferença de que agora a situação era vista pelos olhos de uma criança. Nos filmes posteriores, De Sica-Zavattini a preocupação com as crianças se desloca do ambiente pequeno-burguês para o popular. Vítimas da Tormenta é o exemplo básico, onde, apesar de vítima dos adultos (e apesar do final infeliz), a infância se supera e realimenta seus sonhos o quanto pode. Décadas depois, De Sica declarou que os meninos engraxates eram o retrato de uma Itália devastada física e moralmente pela guerra. Tanto no caso de A Culpa é dos Pais quanto de Vítimas da Tormenta, De Sica está falando das crianças que nasceram durante o Fascismo (e que sobreviveram a ele), uma geração solitária, filha da geração falida anterior. De qualquer forma, apesar de facilmente cooptáveis por um cinema (e futuramente pela televisão) populista e/ou humanista, o desemprego em massa e a deliquência foram situações endêmicas na Itália do pós-guerra (9). Segundo a versão do próprio De Sica:

“Pedi a Zavattini que pensasse em um roteiro. Zavattini estudou o problema, conhecemos pessoas e visitamos lugares juntos, entre outros o presídio de Porta Portese, que, depois, no filme, foi retratado com impressionante fidelidade. Em uma semana, foi apresentado novo roteiro, o qual foi aceito sem nenhuma reserva pelo produtor. Surgiu, então, o problema do elenco. Atores ou amadores? Gostaria de declarar, nesta altura, que, para mim, a escolha de atores rotulados como ‘tirados da rua’, nunca me foi imposta, não era uma atitude rígida. Existem personagens que requerem atores profissionais, existem outros que podem viver apenas com certo vulto, sem muita importância, encontrado unicamente na vida real. Foi muito difícil encontrar os dois rapazes de Vítimas da Tormenta. Descobrimos primeiro o rapaz mais novo, Rinaldo Smordoni (Giuseppe); o outro, Franco Interlenghi (Pasquale), o encontrei, de fato, na rua. Filho de modestos trabalhadores, ele preferia ficar na rua a fazer qualquer outra coisa para se divertir. Todos apostavam em Smordoni e diziam que, quando ele crescesse, se tornaria um grande ator. E, no entanto, aconteceu o contrário: Interlenghi tornou-se ator, o outro, me parece, pedreiro ou padeiro. Vítimas da Tormenta foi, do ponto de vista econômico, uma desgraça para o pobre produtor Tamburella. Custou menos de um milhão de liras, mas, na Itália, praticamente não foi visto por ninguém. Foi lançado no momento em que chegavam os primeiros filmes [norte-]americanos, os quais eram devorados insaciavelmente pelo público. Mais tarde o filme foi vendido para a França por quatro milhões de liras e arrecadou trezentos milhões de francos. Nos Estados Unidos, foi comprado por dois distribuidores diferentes e fez a fortuna de ambos. Recebeu até um Oscar com o qual foi premiado ‘o esforço produtivo da Itália’, recém-saída da desastrosa guerra. Apesar disso, os [norte-] americanos, por muito tempo, fizeram uma grande confusão e, quando Rossellini foi para Hollywood, atribuíram a ele a paternidade de Vítimas da Tormenta” (10)

Neorrealismos: Rossellini e De Sica





Roberto
Rossellini
olhava  para  o 
mundo, enquanto Vittorio De Sica  procurava
 senti-lo







Qualquer livro de história do cinema irá citar Vítimas da Tormenta, juntamente a seis outros filmes, para caracterizar o Neorrealismo italiano: os três filmes de Roberto Rossellini, Roma, Cidade Aberta (1945), Paisà (1946) (não nos esqueçamos dos pivetes napolitanos do segundo episódio), Alemanha Ano Zero (Germania Anno Zero, 1948); De Sica aparece com mais dois títulos, Ladrões de Bicicleta e Umberto D (1952); Peter Bondanella cita em último lugar a síntese do marxismo de Antonio Gramsci e do verismo de Giovanni Verga que Luchino Visconti realizou em A Terra Treme (La Terra Trema – Episodio del Mare, 1948) – muitos incluiriam nesta lista Obsessão, também de Visconti. Embora Bondanella se apresse em afirmar que tal classificação geralmente é fruto de uma interpretação limitada do neorrealismo italiano (esses filmes não esgotam o assunto), ele admite que, em grande medida, a contribuição do neorrealismo à evolução do cinema deva ser avaliada a partir do êxito (não necessariamente de bilheteria) destas mesmas obras (11).  (imagens acima e abaixo, o reformatório)






Olhar o mundo 
a partir do ponto
de vista da criança,
técnica     utilizada
de forma  efetiva
por   De   Sica






Do ponto de vista da tradição neorrealista, quando se compara a abordagem de Rossellini em seus três filmes citados aos de De Sica, fica evidente a falta de uma abordagem estética ou programática da sociedade no segundo caso. Esta é a opinião de Bondanella, que procura resumir as diferenças citando um comentário de André Bazin, para quem “o estilo de Rossellini é uma forma de olhar, enquanto que para De Sica é antes de tudo uma forma de sentir” (12). Ainda de acordo com Bondanella, o estilo de Rossellini está mais próximo de um método, enquanto De Sica frequentemente inova com toques estilísticos sobre histórias tradicionais. Rossellini vem do cinema documentário, enquanto De Sica começou sua carreira como um ator popular em papéis cômicos, optando pela direção em 1940. Em 1942, sua quinta realização foi um trabalho conjunto com Cesare Zavattini, em A Culpa é dos Pais - embora Zavattini tenha roteirizado os melhores filmes neorrealistas de De Sica, Bondanella afirma que o cineasta utilizou apenas parcialmente as idéias neorrealistas do amigo. Para Bondanella, A Culpa é dos Pais foi crucial para De Sica no pós-guerra, mais focado no roteiro do que na improvisação (comum em Rossellini e Visconti), nas locações em estúdio e na da perspectiva de crianças (visando uma resposta sentimental do espectador) – neste filme, uma esposa adultera leva o marido ao suicídio e perde o afeto de seu filho. (imagem abaixo, acima, à esquerda, expressão de tédio do juiz enquanto escuta a fala inútil do defensor público designado pelo Estado para defender Pasquale; lado direito, durante o desfecho catastrófico da sessão de cinema no reformatório talvez possamos especular sobre o porque do padre católico ter sido colocado entre o fogo e o extintor de incêndio, seria o padre/Igreja a fonte do fogo? Ou seria o padre/Igreja apenas mais um que alimenta o fogo como mais um inocente útil?; na parte inferior, à esquerda, Giuseppe e Pasquale em seus primeiros momentos na prisão, ao lado, Giuseppe e seus novos amigos, note-se como mudou a expressão facial de Giuseppe)


“Em última análise, ao lidar com seus protagonistas mirins
em todos os seus clássicos neorrealistas, é o sentimentalismo de
De Sica que deixa o seu trabalho bem distante do de Rossellini”  (13)



De Sica e os Garotos da Rua 





Vítimas da Tormenta, 
Ladrões     de     Bicicleta
  e   Umberto   D   compõem 
 a   Trilogia    da    Solidão, 
    de   Vittorio   De   Sica (14)







Fonte de aborrecimento para muitos espectadores acostumados ao padrão hollywoodiano que invadiu o mundo depois da Segunda Guerra Mundial, a utilização de atores e atrizes não-profissionais é uma das marcas registradas do neorrealismo italiano. Em Vítimas da Tormenta, os personagens Giuseppe Filippucci e Pasquale Maggi se encaixam nessa categoria. Garotos das ruas de Roma, respectivamente, Rinaldo Smordoni e Franco Interlenghi, este último construirá uma longa carreira no cinema (entre outros, atuará como Moraldo, o alter-ego de Federico Fellini, quando realizou Os Boas Vidas (I Viteloni, 1953) – anos depois, Pier Paolo Pasolini enaltecerá os “garotos da vida”, eternizando-os em Accattone. Desajuste Social (Accattone, 1961) (com mais idade do que os adolescentes/crianças em De Sica). Ele mesmo um ator experiente, Vittorio De Sica desconfiava da facilidade com que os atores profissionais passavam de uma emoção para outra, nutrindo profunda fé nos poderes expressivos das pessoas comuns/não-atores. Na opinião de Bondanella, essa fé propiciará seus melhores frutos com os atores não-profissionais (nos papeis de pai e filho) que protagonizarão Ladrões de Bicicleta, dois anos depois de Vítimas da Tormenta. Segundo De Sica, seu método de direção é “ser fiel ao personagem”, implicando uma inversão das técnicas de Hollywood:

“Não é o ator que empresta ao personagem um rosto, mesmo que ele possa ser versátil é necessariamente o seu próprio, mas o personagem que se revela, cedo ou tarde, ‘neste’ rosto particular e em nenhum outro... sua ignorância é uma vantagem, não um obstáculo. O homem na rua, particularmente se for dirigido por alguém que seja um ator, é um material bruto que pode ser moldado à vontade. É suficiente explicar a ele aqueles poucos truques da profissão que podem ser úteis de vez em quando; mostrar para ele os meios técnicos e, claro, os meios histriônicos [teatrais?] de expressão a sua disposição. É difícil – talvez impossível – para um ator formado esquecer sua profissão. É bem mais fácil ensinar [atuação], apenas o mínimo que seja necessário, apenas aquilo que for suficiente para o efeito pretendido” (15) (abaixo, da esquerda para a direita, através grades, Giuseppe olha o mundo que ficou para trás; a seguir, Pasquale e Giuseppe, no camburão, avistam pela primeira vez o reformatório; abaixo, os dois amigos no camburão olhando para um mundo que parece cada vez mais distante)



No pátio do reformatório,
o   grupo  de  meninos  simula  uma  peça
de   ópera,   antecipando   a  dramática   confrontação
entre  os  super  amigos  Giuseppe  e  Pasquale.  Em Umberto D, 
a proprietária do apartamento escuta ópera apenas por status social.
Vários outros elementos têm qualidades simbólicas nos filmes de 
 Vittorio De Sica, em Vítimas da Tormenta um cavalo, 
em Ladrões de Bicicleta uma bicicleta, em
     Umberto D  um  cachorro (16)


De acordo com Bondanella, a tragédia da inocência da infância sendo corrompida pelo mundo dos adultos em Vítimas da Tormenta é um comentário irônico (e pessimista) a respeito da nota de esperança que soou na conclusão de Roma, Cidade Aberta: dois pequenos engraxates estão juntando dinheiro para comprar um cavalo, mas se envolvem com o mercado negro através do irmão mais velho de Giuseppe e vão parar no reformatório, onde sua amizade será gradualmente corroída pela injustiça social geralmente associada ao mundo adulto e às figuras de autoridade. Depois de escapar, a morte acidental de Giuseppe pelas mãos de Pasquale conclui o trágico encontro da amizade na infância com o mundo adulto. Bondanella chamou atenção também para o estilo de câmera desenvolvido por De Sica, muito em débito com os mestres franceses da geração precedente (realismo mágico?). A primeira cena do filme mostra os cavalos galopando com os meninos (uma representação do ideal de liberdade). Filmados a partir de um ângulo baixo, a eles será conferida uma estatura equestre. Contudo, em seu dia-a-dia, o mesmo ângulo baixo enfatizaria sua situação humilde no mundo. A sensação de confinamento se aprofunda no reformatório, onde uma série de imagens através das janelas das celas apresenta os meninos numa situação claustrofóbica. A cena final, que ao contrário da cena inicial simula uma situação ao ar livre em estúdio, conclui a sensação de confinamento e dá o tom da tragédia futura de Pasquale.  (imagem abaixo, à direita, a cena final)





Fellini 
também utilizará um 
cavalo    para    representar
a   solidão   humana,    na   cena 
de  A  Estrada  da  Vida (1954) 
em      que      Gelsomina
é   abandonada   por
 Zampanò




Bondanella sugere que De Sica segue Jean Renoir e Orson Welles ao explorar frequentemente as possibilidades técnicas da encenação para juntar uma grande quantidade de informação visual numa única tomada. O filme começa e termina com a visão do cavalo, cuja retirada de cena no final, na opinião de Bondanella, simbolizaria o final da amizade (agora definitivamente) entre Giuseppe e Pasquale. Anteriormente, Pasquale foi enganado e acabou traindo a confiança de Giuseppe ao revelar o nome dos adultos responsáveis pelo mercado negro. Vingativo, Giuseppe esconde uma serra entre as coisas de Pasquale na prisão, o que leva um dos adultos responsáveis pelo reformatório a dar uma surra de cinto em Pasquale. Quando Giuseppe foge do reformatório, Pasquale vai até ele e lhe dá uma surra de cinto (como faria um adulto?). Tentando se defender, Giuseppe morre. Pasquale perde tudo, Giuseppe também (supondo que sua situação sem perspectivas em vida não significasse já a morte; enquanto isso, o mundo burguês na Itália se recuperava das perdas durante a guerra). (imagem abaixo, da esquerda para a direita, o cozinheiro do reformatório ainda não compreende os novos tempos do pós-guerra e como de costume faz a saudação fascista para o diretor, que prontamente responde, logo a seguir percebendo seu o falho; a seguir, num ângulo de visão no qual os italiano viram Mussolini por muito tempo, o diretor grita suas ordens; abaixo, o ponto de vista dos pequenos engraxates: agachados e olhando para baixo; a seguir, o momento da prisão de Giuseppe e Pasquale)



Em    Os    Esquecidos    (Los    Olvidados, 
1950),     o     cineasta    espanhol    Luis    Buñuel    apresentou
 uma      imagem      crua      da      infância      e      da      adolescência 
(um   dos   núcleos   dramáticos   do   cinema   italiano   do   pós-guerra). 
Contudo,  ele  não  concordava com  o  ponto  de  vista  neorrealista, seu  
surrealismo não se fundia ao Neorrealismo como o realismo mágico francês presente entre os pobres e desabrigados milaneses que 
    De Sica apresentou em Milagre em Milão (17)


Bondanella afirmou ainda que, pelo menos em seus primeiros filmes neorrealistas, De Sica era mais consciente que Rossellini em relação ao fato de que sua “realidade” filmada era um produto da ilusão cinematográfica, e tinha prazer em revelar isso. Como na sequência em que um cine-jornal ironicamente intitulado “Notícias do Mundo Livre” mostra os norte-americanos quando ainda estavam em guerra com os japoneses. A seção será interrompida pelo incêndio do projetor (mais do que pela fuga do grupo de Giuseppe), Bondanella acredita que se trata de uma rejeição de Vittorio De Sica quanto à tese (defendida publicamente por ele mesmo) de que o cinema deva refletir a realidade social. Um comentário irônico de De Sica fica por conta do uma sequência anterior, apenas inteligível para aqueles a par das tentativas de Mussolini para “purificar” o idioma italiano de estrangeirismos. Logo após a cena em que Giuseppe e Pasquale são recebidos e avaliados no reformatório, o diretor se retira conversando sobre a situação da delinquência juvenil naqueles tempos. Em certo momento, ao se dirigir a um subalterno, o diretor utiliza uma forma verbal, que logo corrige (“Voi, anzi Lei”) – infelizmente a legenda da edição brasileira do DVD não considerou relevante registrar isso. A seguir, quando o diretor vai à cozinha inspecionar os procedimentos, o cozinheiro esquece que agora eles estão em 1946 (o Fascismo não está mais no poder) e instintivamente faz a saudação fascista para este seu superior hierárquico (que responde prontamente, embora logo se constranja com o ato falho). (imagem abaixo, seus companheiros de cela, já libertos, chegam no tribunal para assistir ao julgamento de Giuseppe e Pasquale, o prédio parece massacrar as crianças com todo seu gigantismo)

Censura Stalinista na Itália “Livre” 




“Eu   acredito   que   nesse
campo, como   em   todos   os
campos,  a  melhor  forma de nos
 defendermos   de   uma   influência   negativa  é  produzir  muitos  rolos 
com  conteúdo  positivo,  porque,
sinceramente,        eu       não 
acredito muito em censura” 

Giulio Andreotti,
Leggi e Decreti, num. 958, 1949 (18)




O filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre via as obras neorrealistas como um compromisso entre o realismo crítico e a censura. Vítimas da Tormenta é um exemplo desse compromisso, embora tenha sido produzido numa época em que o grande problema parecia ser a invasão dos filmes norte-americanos, iniciada já durante a ocupação dos Aliados – em março de 1949, em Roma, os cineastas conclamam uma grande manifestação em defesa do cinema italiano. Nos anos 50 a censura, imposta tanto pela Democracia-Cristã quanto pelo Vaticano (lembremos que em Vítimas da Tormenta são os padres católicos os responsáveis pelo cinema no reformatório), será a grande inimiga do cinema italiano engajado (19). Um filme de crítica social como Ladrões de Bicicleta teve proibido o visto de exportação, Umberto D também enfrentou problemas com a censura. O governo Democrata-Cristão interveio no Festival de Cannes de 1954 comprando os jurados para que Sedução da Carne (Senso) não fosse premiado já que seu realizador, Luchino Visconti, era comunista. Giulio Andreotti, então subsecretário no Ministério do Espetáculo do governo De Gasperi, questionou a imagem da Itália que filmes como estes iriam disseminar insistindo que “roupa suja se lava em casa” (20). Andreotti conseguiu aprovar uma lei que teoricamente visava à reconstrução do cinema italiano em 29 de dezembro de 1949 – para quem conhece o calendário ocidental, uma lei votada na véspera do Ano Novo soa, no mínimo, como um evidente casuísmo. Embora alguns afirmem que a temporada neorrealista se estendeu até 1955, não é difícil concluir porque outros sugerem que a onda surgida em 1945 encontrou as pedras a partir de 1950.
 


 Em   Vítimas    da    Tormenta,  os  padres 
católicos são  encarregados da sessão de cinema.
Enquanto   Pasquale   considera   uma   sorte   receber
entretenimento na prisão, um de seus colegas de 
cela reclama que são sempre filmes bobos


Em decorrência da nova lei, houve uma centralização do poder nas mãos dos Democrata-Cristãos, cujos interesses estavam em conformidade com os interesses do Vaticano - “vigie e seja seletivo” foi o comando que a Igreja deu a Andreotti. A primeira controvérsia foi o fato de que a qualidade dos filmes seria julgada por parlamentares (um “comitê burocrático) e não por aqueles que trabalhavam no cinema, e/ou pelos espectadores. Foram estabelecidos subsídios financeiros às produções, contanto que elas obedecessem às diretivas da lei: os roteiros deveriam ser pré-aprovados pela “censura política”, sem o que não receberiam permissão para serem exibidos. Sendo assim, ainda que nem todos os filmes fossem financiados pelos subsídios estatais, nenhum produtor desejava perder dinheiro num projeto que não houvesse sido aprovado pelo Estado. De fato, explica Daniela Treveri Gennari, esse sistema nada mais era do que a restauração da política implementada pelos fascistas para o setor cinematográfico em 1923. Esta forma de “censura preventiva” já havia sido introduzida desde 1947, atravessou os anos 1950 e só viria a ser relaxada a partir da nova legislação aprovada em 1962. Quantitativamente falando, a lei de Andreotti aumentou a produção de filmes até 1955 – situação que, de uma forma ou de outra, parecia ser um bom sinal em se tratando de uma indústria cinematográfica que havia sido desmantelada pelos alemães. Contudo, do ponto de vista qualitativo verificou-se uma queda bastante acentuada (21). (imagem abaixo, depois de um julgamento previsível, Pasquale, Giuseppe e seu irmão mais velho, tomam o caminho da prisão)



A partir de setembro de 1943, na ocupação 
de Roma pelos alemães, o equipamento da Cinecittà
foi todo levado para a Alemanha. Aquilo que retornou foi direto
para   a   República  de  Salò.  Com  a  libertação  em  1944,  Cinecittà
se    tornou    um   campo   para    prisioneiros    alemães,    depois   para 
refugiados.  Existem  registros  de   uma   produção  em  1946,  Umanità, 
da  qual  não  se  tem notícias. O trabalho  só  recomeçaria  em  1947.
 O     primeiro     filme,      Cuore     (1948),     protagonizado     por
  De Sica,  também apresentava seu nome  na  direção, 
     que    compartilhou    com    Duilio   Coletti (22)


Do ponto de vista da produção italiana, o mercado estava sendo inundado por filmes mais para o povo do que sobre o povo, assim Vittorio Spinazzola definiu a situação daquela época – que ao mesmo tempo, não podemos esquecer, estava sendo dominada cada vez mais pelos filmes norte-americanos. Como resultado, o neorrealismo foi expelido do mercado dominante por diferentes variações de cinema popular, que, em geral, mantinham um forte vínculo com a tradição católica. Nas palavras de Spinazzola: “muito católico, mantido por um forte sentido de pecado e a convicção da inescapável fragilidade da natureza humana, o cinema popular italiano procurou possuir um valor edificante explícito – portanto, diferindo da moralidade mais distante e complexa dos neorrealistas também a esse respeito” (23). Ao colocar governo e economia em função e um cinema mais conservador e católico, na mira direta de Andreotti, dos Democrata-Cristãos e do Vaticano estava justamente o cinema mais experimental – que era como se podia então considerar o neorrealismo, talvez mesmo o de Zavattini-De Sica, devido ao seu criticismo em relação às políticas públicas de Andreotti. Como os opostos se atraem, curiosamente não é difícil recordarmos das críticas stalinistas, na União Soviética da década de 1920, que denegriam o cinema experimental (o que incluía bolcheviques como Lev Kulechov, Serguei Eisenstein e até mesmo Dziga Vertov) apenas porque insistisse em experimentações da linguagem cinematográfica, quando o Partido Comunista pretendia que o cinema se resumisse apenas à propaganda do regime. 

Compreende-se porque irritassem ao governo italiano as cenas de Vítimas da Tormenta mostrando deliquência juvenil, sistema penitenciário falho, resquícios fascistas no comportamento de funcionários do Estado, falta de perspectiva no mercado de trabalho, Igreja Católica conivente. Na mesma linha, compreendem-se as restrições a Ladrões de Bicicleta e Umberto D, filmes que também apontam para a incapacidade do governo Democrata-Cristão em apresentar à população uma política pública eficaz, sendo capaz apenas de demonstrar seu anticomunismo (o que também era bastante conveniente em tempos de Guerra Fria) e se perpetuar no poder. Enquanto isso, lá como cá, as crianças continuam sendo usadas pelos adultos como pretexto para quase tudo.

Leia também:

O Inferno é Para as Crianças
O Rolo Compressor de Tarkovski
A Poesia e o Cinema em Tarkovski
Accattone: Favelado, Cafetão e Cristo

Notas:

1. Comentário no final de Così è la Vita (Sandro Lai, 2001), documentário nos extras do DVD de Ladrões de Bicicleta, lançado no Brasil pela Versátil Home Vídeo, 2006.
2. FABRIS, Mariarosaria. O Neo-Realismo Cinematográfico Italiano. São Paulo: Edusp, 1996. P. 123.
3 DI BIAGI, Flaminio. Il Cinema a Roma. Guida alla Storia e ai Luoghi del Cinema nella Capitale. Roma: Palombi Editore, 2010. P. 45.
4. FABRIS, M. Op. Cit., pp.84, 92, 106n67.
5. Così è la Vita, ver nota 1.
6. BONDANELLA, Peter. Italian Cinema. From Neorealism to the Present. New York/London: Continuum, 3ª ed., 2008. P. 95.
7. FABRIS, M. Op. Cit., p.102n47.
8. DI BIAGI, F. Op. Cit., p. 157.
9. FABRIS, M. Op. Cit., pp. 90, 110n81, 111n83, 124-5, 128.
10. Uma Palavra do Diretor, nos extras do DVD de Vítimas da Tormenta, lançado no Brasil pela distribuidora Versátil Home Vídeo, 2003.
11. BONDANELLA, P. Op. Cit., pp. 37, 53-6.
12. Idem p. 53.
13. Ibidem.
14. Ibidem, p. 62.
15. Ibidem, p. 56.
16. Ibidem, pp. 56, 66.
17. PARANAGUÁ, Paulo Antônio. El Neorrealismo Latinoamericano. In: Neo-Realismo na América Latina. Revista Cinemais, número 34, junho e 2003. P. 39.
18. GENNARI, Daniela Treveri. Post-War Italian Cinema. American Intervention, Vatican Interests. New York/London: Routledge, 2009. P. 56.
19. FABRIS, M. Op. Cit., pp. 131, 154n18, 157n38.
20. MINNELLA, Maurizio Fantoni. Non Riconciliati. Politica e Società nel Cinema Italiano dal Neorealismo a Oggi. Torino: UTET Libreria, 2004. P. 12.
21. GENNARI, D. T. Op. Cit., pp. 51-2, 55-6.
22. Di Biagi, F. Op. Cit., pp. 42-4.
23. GENNARI, D. T. Op. Cit., p. 56.

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