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Roberto Acioli de Oliveira

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1 de nov de 2008

As Mulheres de Mussolini, Ontem e Hoje




(...) O fascismo foi o primeiro
movimento a projetar as mulheres
na cena nacional – embora
dissessem textos escritos
basicamente pelos homens. O
movimento em seus primórdios
e a tomada do poder também se
haviam mostrado decididamente
‘machistas’. Mas as mulheres
italianas certamente viriam a
oferecer ao regime fascista
estabelecido tanto apoio
passivo quanto os homens”
(1)



Histeria Feminina

Apesar de nove mulheres terem participado da reunião de fundação do Movimento Fascista de Benito Mussolini, em pouco tempo apenas um a dois por cento dos membros eram mulheres ainda em 1922 – e nenhuma delas estava em posições de liderança. Na verdade, neste particular, a coisa não era muito melhor nos outros partidos políticos. Na Itália, a mulher nem mesmo tinha direito de votar nas eleições. Elas eram ligadas a organizações auxiliares, que só perdiam em tamanho para as organizações católicas de mulheres. Muitas mulheres italianas que aderiam ao fascismo eram componentes agora descrentes com o movimento Feminista, mais centrado na questão do emprego (2). (imagem acima, Amarcord [1973], de Fellini. Nesta seqüência, a professora de matemática da cidade "trota" no desfile dos fascistas comemorando a fundação de Roma. Enquanto isso, ela nos conta: "Esse entusiasmo é maravilhoso! Somos jovens de coração e imortais. O Fascismo revitalizou nossos antigos ideais, santificou nossa herança")

O Fascismo queria controlar as mulheres de forma não coercitiva, direcionando-as para atividades sociais. Homenageavam as viúvas de seus soldados (transformados em mártires) e aquelas que doavam suas alianças de casamento para fornecer ouro para a guerra nas colônias italianas na África. O fascismo fez das mulheres as “reprodutoras da nação”, seus “anjos do coração”. (ao lado, Amarcord. Na parada também encontramos a famosa mulher da tabacaria e inclusive o padre)

Em Um Dia Muito Especial (Una Giornata Particolare, 1977, direção Ettore Scola), Sophia Loren faz o papel de uma esposa italiana da classe trabalhadora. Tratada com desprezo por seu marido fascista, ela está presta a dar a luz a seu sétimo filho, o que trará uma medalha e benefícios do Estado. Com relação a sua gravidez atual, ela contou que certo dia estava na rua e se virou, então viu que era o próprio Mussolini que estava no carro. Ela desmaiou e descobriu que estava grávida. Em sua opinião foi o Duce que a engravidou. Esse exemplo dá uma dimensão do grau de histeria, infantilidade e ignorância da Itália daqueles tempos.

Embora seus filmes não sejam exatamente documentários, outro cineasta italiano, Federico Fellini, nos dá vários exemplos do tipo de relação estabelecida entre Mussolini e a massa. Em Amarcord (1973), Gradisca é uma mulher voluptuosa cobiçada por homens e meninos (Ela está na imagem acima, de casaco vermelho, durante o desfile militar, histérica para tocar no comandante fascista). Mas ela só tem olhos para os fascistas uniformizados e não descansa enquanto não casa com um deles. Em Roma de Fellini (Fellini-Roma, 1972), um oficial fascista é chamado pelo funcionário da estação de trens para disciplinar alguns garotos baderneiros.

É como se a doutrina implantada por Mussolini estivesse tomando o lugar dos pais dentro da família Na verdade, isso será feito por seu amigo alemão, Adolf Hitler, em seu próprio país alguns anos mais tarde. As salas de aula italianas das décadas de 20 e 30 do século 20 nos filmes de Fellini sempre mostram, na parede atrás da cadeira do professor, três retratos: o rei da Itália, o Papa e Mussolini. (imagem acima, à direita; note que o Papa, na moldura central, aparece da cintura para cima, portanto mais longe; o rei, na moldura à esquerda da foto, aparece em close, porém meio afastado e, portanto, como que apequenado; já o close de Mussolini ocupa todo o quadro, fazendo-se visível mesmo do fundo da sala. Sendo assim, o culto da imagem mostra claramente neste caso a diferença de estatura entre as três pessoas. Na imagem abaixo, à direita, Sophia Loren é a esposa-empregada-burro de carga de um fascista grosseiro, mas de uniforme impecável, em Um Dia Muito Especial. Nesta cena, ele sai do banheiro e enxuga as mãos no vestido dela, que olha e se limita a resmungar)

Histeria Masculina





“Uma prostituta não é apenas
uma prostituta; ela é
acima de tudo uma mulher”

Cristina, prostituta italiana (3)



Em Mulheres no Front (Le Soldatesse, 1965), Valério Zurlini mostra um grupo de prostitutas sendo levadas pelos próprios militares para entreter soldados italianos lutando na Grécia durante a Segunda Guerra. Gabriele Savatores mostra, em Mediterrâneo (1991), uma prostituta que não tem o menor pudor em oferecer seus serviços para os soldados italianos recém chegados a uma pequena ilha grega durante a guerra. Ela também não tem nenhum pudor de dizer que acabou vivendo ali porque foi trazida pelos soldados alemães que haviam ocupado o lugar. (na imagem acima, prostitutas chegam a Amarcord; um homem chama atenção para elas ("As novas aquisições da Madame!"), enquanto outro desdenha ("Olha só que cambada!")

Em Malena (Malèna, 2000), Giuseppe Tornatore mostra a saga de uma mulher vítima de inveja na Sicília durante a mesma guerra. Seu marido é dado como morto, e ela recebe as homenagens de praxe. A partir daí, sem dinheiro, ela se prostitui. O filme sugere que ela chega nesse ponto por ter sido isolada pelas outras mulheres, todas não cobiçadas pelos homens da cidade. Todos os homens da cidade haviam se aproveitado de Malena, mas no final da guerra deixam que seja expulsa pelas outras mulheres. Enquanto isso seu marido retorna vivo. Ele vai procurá-la nos prostíbulos da cidade para onde se mudou. O casal volta e ela é aceita pelas mesmas mulheres que quase a mataram.

Mulheres no Front, Mediterrâneo e Malena, são apenas três exemplos que ilustram a problemática da prostituição durante o regime de Mussolini na Itália. Desde 1860, a prostituição no país era regulada pela Lei Cavour, embora as origens dessas diretivas tenham suas origens em tempo medievais. A Igreja medieval tolerava a prostituição, considerando-a uma válvula de escape para o incontrolável impulso masculino, que poderia cria problemas se direcionado às virgens ou às esposas solitárias, ou ainda a homossexualidade e a masturbação. A Lei Cavour registrava as prostitutas e os bordeis. Elas deveriam ser examinadas duas vezes por semana e hospitalizadas em local predeterminado em caso de doença venérea. Houve um afrouxamento da legislação entre 1888 e 1891, mas tudo voltou como era antes e só veio a mudar em 1958 (4). Em 1923, Mussolini parecia reprimir a prostituição. Entretanto, como mostrou Mulheres no Front, na verdade nada mudou muito. Antes de 1959, a prostituição só era legalizada dentro dos bordéis.

Neste ano, a Lei Merlin, ainda aplicada hoje, revogou essa regulamentação do Estado sobre a prostituição, fechou os bordéis e criou empecilhos para a exploração das prostitutas pelos cafetões e cafetinas. No entanto, ainda que essa lei tivesse como objetivo dar mais direitos as prostitutas, causou um notável aumento da prostituição de rua, especialmente com imigrantes ilegais (5) - segundo dados de 1995, 80% das prostitutas de rua de Milão eram estrangeiras (6). (imagem acima, à esquerda, a prostituta de Mediterraneo. Ao lado, Malena, um destino selado pela moral machista e hipócrita dos homens da Sicília)

A mesma prostituição de rua praticada por Cabíria em Noites de Cabíria (Le Notti di Cabiria, 1957). No filme de Fellini, ambientado em 1957, portanto dois anos antes da Lei Merlin, Cabíria estava ilegal porque se prostituía fora do bordel. Atualmente na Itália ela estaria ao lado de muitas e muitas imigrantes ilegais, provavelmente agenciadas pelos mesmos cafetões e cafetinas italianos que agora estão fora da lei, depois de agirem sob a proteção do Estado de 1860 a 1958. (imagem ao lado, Cabíria, uma prostituta de Roma, na direita da foto, conversa alegremente com uma companheira de trabalho segundos antes de ser provocada pela mulher ao fundo e começar uma briga no meio da rua, enquanto os clientes passam de carro)

Notas:

Leia também:

Ettore Scola e o Milagre em Roma
Ettore Scola e o Filme Dentro do Filme
Mussolini e a Sombra de Auschwitz
Bertolucci no Mundo da Lua

1. MANN, Michael. Fascistas. Tradução Clóvis Marques. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2008. P. 142.
2. Idem, p. 141.
3. GARBOLEVSKY, Eugenia. Voices from the Edge: Caught Between the Madonna and the Whore: The Representation of the Prostitute in Italian Cinema. Disponível em:
http://pages.towson.edu/ncctrw/summer%20institutes/Papers-Website/Garbolevsky%2005.pdf Acessado em: 01/11/2008.
4. GIBSON, Mary. Prostitution and the State in Italy: 1860-1915. Columbus: Ohio University Press, 1999. In GARBOLEVSKY, Eugenia. Op. Cit.
5. Prostitution in Italy. Wikipedia. Disponível em:
http://en.wikipedia.org/wiki/Prostitution_in_Italy Acessado em: 01/11/2008.
6. Factbook on Global Sexual Exploitation: Italy. Disponível em:
http://www.uri.edu/artsci/wms/hughes/italy.htm Acessado em: 01/11/2008.

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