Melhor visualizado com Mozilla Firefox (resolução 1024x768/fonte Times New Roman 16)

-

Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

9 de jun de 2009

Pasolini e o Sexo Como Metáfora do Poder (IV)


“Eu não sei
nem como
,
nem quando,
alguma coisa
de humano
acabou”


Pier Paolo Pasolini (1)
Revolução Sexual?

Depois de dirigir os filmes de sua Trilogia da Vida, Pier Paolo Pasolini parecia não nutrir muitas esperanças de que a Itália sobrevivesse ao bombardeio avassalador que o consumismo promovia nos corações e mentes de seus conterrâneos. Tanto é que ao ver como os filmes foram deglutidos pela lógica do consumo e transformados em pornografia ele abjurou os filmes da Trilogia. Talvez fosse tarde demais, os próprios corpos das pessoas haviam sido dominados, a sexualidade em si mesma estava a mercê e a serviço do mercado de consumo: agora sexo é bom por que vende um produto qualquer, ainda que seja a pornografia.

Na década de 70 do século passado, após o advento da pílula anticoncepcional, a liberdade sexual era uma questão aparentemente resolvida. Os corpos eram agora aparentemente livres para fazer sexo quando quisessem e com quem desejassem. As lutas das feministas em torno do aborto estavam na ordem do dia. Entretanto, do ponto de vista de Pasolini era como se o mundo estivesse acabando. Para começar, ele era contra o aborto e questionava o papel da escola, que estaria a serviço do capital e não mais se concentrava em formar pessoas, mas consumidores.

Há quem diga que a luta dele contra o aborto teria raízes em sua mãe. Ele foi muito ligado a ela e estaria vendo a legalização do aborto como uma forma de destruir os laços entre mães e filhos. Seja como for, o cineasta acreditava que era falsa a permissividade do Estado em relação à revolução sexual. Pasolini fazia uma distinção entre pornografia comercial e pornografia poética, chamando atenção para o fato de que a tolerância do Estado tendia a se voltar para as obras pornográficas vulgares e comerciais, enquanto mantinha sua intolerância em relação às obras de arte onde o elemento erótico tinha sempre um significado cultural e político (2). A falsa permissividade do Estado esconderia a censura àquelas formas de erotismo e de culto ao corpo que não estão a serviço dele e do mercado de consumo direcionado a um público massificado (estúpido).

Foi esse o motivo que levou Pasolini a abjurar sua Trilogia da Vida, pois o erotismo e os corpos nus ali presentes foram destituídos de sua carga poética e o mercado de consumo passou a enfatizar apenas o lado pornográfico, vulgar e comercializável. De acordo com ele, se o exercício da própria sexualidade liberta alguém, então o Estado e o neocapitalismo trataram de destituir o sexo dessa potência libertária e o transformaram numa espécie de rede através da qual a energia da vida poderia ser capturada e direcionada ao consumo de produtos – pornográficos ou não.

Pode-se compreender agora o ponto de vista de Pasolini: por uma censura democrática contra a permissividade do Estado. Segundo o cineasta: “(...)Tal permissividade do Estado é um dos elementos de poluição do homem, justamente porque ele é estatal, capitalista; ela é, portanto, um elemento da alienação e da neurotização dos indivíduos – um elemento de mercantilização que, em grande escala, coincide com um verdadeiro genocídio” (3)

O erotismo torna-se obsessivo, uma vez que em sua nova condição de produto, deverá ser vendido e consumido. Sim, o sexo deve ser transformado numa compulsão para que dê lucro. A frustração com essa sexualidade compulsiva adviria do fato de que fazer sexo se tornou então uma obrigação! Portanto, quanto mais se faz, menos ele satisfaz. Este seria o universo da falsa tolerância do Estado em relação à pornografia. Além disso, sempre que o Estado assim desejar voltará a fazer suas cruzadas moralistas, culpando as pessoas pela degradação engendrada por ele e se apresentando como salvador da moral pública.

“Pasolini sabia também que a revolução sexual promovida pelo fascismo do consumo era uma mistificação, que assim que a humanidade terminasse de realizar a industrialização total do planeta, um moralismo feroz ressurgiria a obrigar todos a fazer o amor dentro das normas produtivas e sociais, através da distribuição de papéis” (4)

O Novo Fascismo

“Se cinco anos de progresso
fizeram
dos italianos um povo
de
neuróticos idiotas, cinco anos de
miséria podem restituir-lhes
a humanidade (...)

Pier Paolo Pasolini (5)

Salò, os 120 Dias de Sodoma
(Salò o le 120 Giornate di Sodoma) é uma metáfora do poder totalitária que se metamorfoseia. Dos dias de Mussolini até a fase do Milagre Econômico na Itália do pós-guerra, existe uma linha que leva direto ao coração do “totalitarismo tolerante” que Pasolini combatia. Eis porque, seu filme foi proibido tão veementemente, eis porque apenas se enfatizam as perversões sadomasoquistas que se pode assistir ali. A bestialidade, que Pasolini desejava fazer ver nos desejos dos Patrões fascistas do filme, foi transformada em fetiche pornô, neutralizando a perspectiva crítica em relação ao momento que a Itália estava vivendo nas décadas do pós-guerra. Pasolini não viveu para ver como ele estava certo, entretanto se Salò foi concebido como a forma mais violenta possível para se mostrar o absurdo da situação política e social da Itália de então, hoje em dia tudo que se pode ver ali passaria quase despercebido aos sadomasoquistas de hoje. Se naquela época, teríamos que conseguir uma cópia pirata do filme de Pasolini para vislumbrar jogos sadomasoquistas, hoje basta comparecer a banca de jornais mais próxima.

Pasolini distinguia entre clérico-fascismo e novo fascismo. O primeiro correspondia a aliança entre o Estado capitalista e a Igreja. Daqui nascia um totalitarismo agrário, artesanal e conservador. Talvez equivalente ao coronelismo no Brasil, esse fascismo era “superficial”, no sentido de que ainda manteria intacta a estrutura psíquica do povo e suas tradições. Exemplos de clérico-fascismo seriam as ditaduras de Salazar em Portugal, de Franco na Espanha e o regime de Mussolini na Itália. O novo fascismo corresponde a aliança entre a Empresa totalitária com o Estado. Mais profundo que o anterior, esse novo fascismo penetra os indivíduos até a alma, roubando-lhes a humanidade. Exemplos desse tipo de fascismo seriam todos os “milagres econômicos” – a Itália atravessou dois até a década de 80 do século passado e o Brasil atravessou um na década de 70, justamente durante a última ditadura. Se antes o italiano seria capaz de interiorizar a pureza da natureza e da humanidade, com o advento do novo fascismo o indivíduo só consegue interiorizar um carro, um refrigerador, um fim de semana na praia (6). O novo fascismo se apresenta com a roupagem da democracia, entretanto a sociedade de consumo transforma radicalmente os jovens.

É isso que está por trás de Salò, os 120 Dias de Sodoma. Ali podemos encontrar assassinato, corpos nus, homossexualismo, sadismo e masoquismo, travestismo e masturbação, além das repugnantes cenas de coprofagia. Entretanto, somente as mentes puritanas e/ou aquelas afogadas na cloaca da estupidez totalitária-consumista-hipócrita serão incapazes de perceber que não se trata de pornografia barata, mas de uma representação do Poder que as fez andar de quatro sem que se dêem conta disso.

Notas:

1. NAZÁRIO, Luiz. Todos os Corpos de Pasolini. São Paulo: Perspectiva, 2007. P. 107.
2. Idem, p. 103.
3. Pour une censure démocratique contre la permissivité d’État, Écran nº42; Le génocide, Écrits Corsaires, pp.239-301. Citado em NAZÁRIO, Luiz. Op. Cit., p. 103.
4. NAZÁRIO, Luiz. Op. Cit., p. 102.
5. Idem, p. 107.
6. La première vraie révolution de droite, Écrits Corsaires, p. 50. Citado em NAZÁRIO, Luiz. Op. Cit., p. 104.

Sugestão de Leitura

Ettore Scola e o Milagre em Roma

Mais um filme que dialoga com o cinema e a política da península Sob a Cúpula de São Pedro Estamos numa favela de Roma na década...

Postagens populares (última semana)

Quadro de Avisos

Salvo quando indicado em algum ponto da página ou do perfil, este blog jamais foi patrocinado por ninguém e não patrocina nada (cursos, palestras, etc.), assim como jamais "doou" artigos para sites de "ajuda" a estudantes - seja no passado, presente ou futuro. Cuidado, não sejam enganados por ladrões da identidade alheia.

e-mail (no perfil do blog).
....

COMO CITAR ESTE BLOG: clique no título do artigo, verifique o link no alto da tela e escreva depois do nome do autor e do título: DISPONÍVEL EM: http://digite o link da página em questão ACESSO EM: dia/mês/ano

Marcadores

1900 (3) 8 1/2 (21) A Aventura (17) A Classe Operária Vai ao Paraíso (2) A Doce Vida (37) A Estrada (11) A Maldição do Demônio (2) A Morte (2) A Noite (17) A Ricota (7) A Terra Treme (11) A Tragédia de um Homem Ridículo (1) A Vida é Bela (3) A Voz da Lua (6) Abismo de Um Sonho (4) Accattone (17) Agência Matrimonial (2) Além das Nuvens (1) Amarcord (15) Amor e Raiva (2) Angelina a Deputada (1) Anno Unno (2) Ano Zero (9) Antes da Revolução (4) Antonin Artaud (2) Antonio Pietrangeli (1) Antonioni (58) Aquele que Sabe Viver (5) Arroz Amargo (7) As Mãos Sobre a Cidade (2) Barbara Steele (2) Barthes (6) Bazin (5) Belíssima (1) Benigni (3) Bertolucci (28) Bicicleta (10) Blow Up (14) Buñuel (4) Burguesia (18) Cabíria (12) Cadáveres Ilustres (2) Camponeses (3) Cardinale (9) Casanova de Fellini (3) Cavani (5) Censura (10) Cidade das Mulheres (17) Cinecittá (3) Cinecittà (6) Cinema de Poesia (3) Cinema Paradiso (7) Cinema Político (10) close (11) Comédia Italiana (5) Comencini (3) Comunismo (24) Consumo (10) Damiano Damiani (1) Dario Argento (1) De Santis (6) De Seta (2) De Sica (30) Decameron (5) Deuses Malditos (4) Divórcio à Italiana (1) doença de Eros (2) Dois Destinos (1) Dublagem (4) E La Nave Va (4) Édipo Rei (11) Ekberg (9) Ensaio de Orquestra (6) Entrevista (3) Era Uma Vez na América (1) Era Uma Vez no Oeste (7) Ermanno Olmi (2) espaguete (8) Europa 51 (9) Expressionismo Abstrato (3) Fascismo (36) Favela (3) Fellini (81) Feminismo (3) Francesco Rosi (8) Freud (14) Gaviões e Passarinhos (5) Gelsomina (9) Gente del Po (3) Giallo (1) Gilles Deleuze (3) Ginger e Fred (5) Giulietta Masina (5) Giuseppe Ferrara (2) Glauber Rocha (7) Godard (10) Gramsci (6) Hitchcock (1) Hitler (12) Hollywood (44) Holocausto (7) Homossexualidade (11) Igreja (10) Il Provino (2) Ingrid Bergman (6) Investigação de Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (2) Irmãos Taviani (2) Judeu (4) Julieta dos Espíritos (8) Jung (5) Kapò (1) Kieslowski (2) Kurosawa (3) La Luna (4) Lacan (2) Ladrões de Bicicleta (2) Lattuada (5) Leone (12) Lollobrigida (11) Loren (14) Mãe (13) Magnani (9) Malena (2) Mamma Roma (19) Marco Bellocchio (2) Marilyn Monroe (6) Mario Bava (2) Marxismo (4) Mastroianni (15) Medéia (7) Melodrama (3) Milagre Econômico (21) Mito da Caverna (1) Monicelli (8) Morte em Veneza (1) Mulher (27) Mulheres e Luzes (2) Mussolini (39) Nazi-Retrô (2) nazismo (10) Neo-Realismo (55) Noites de Cabíria (14) Nosferatu (3) Nudez no Cinema (3) O Bandido Giuliano (4) O Carteiro e o Poeta (2) O Caso Mattei (2) O Conformista (6) O Deserto Vermelho (15) O Eclipse (22) O Gato de Nove Caudas (1) O Grito (8) O Leopardo (1) O Milagre (7) O Ouro de Roma (1) O Pássaro das Plumas de Cristal (1) O Teatro e Seu Duplo (1) O Último Imperador (6) O Último Tango em Paris (4) Obsessão (6) Os Banqueiros de Deus (1) Os Boas Vidas (7) Os Palhaços (2) Os Sonhadores (2) Pai (5) Pai Patrão (1) Paisà (23) Partner (4) Pasolini (73) Pasqualino (2) Peplum (5) Petri (3) Pietro Germi (2) Pocilga (8) Poesia (3) Pontecorvo (7) Por Uns Dólares (3) Pornografia (9) Profissão Repórter (15) Prostituta (15) Psicanálise (12) Quando Explode a Vingança (1) Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza (1) Realismo Poético Francês (1) Religião (11) Risi (6) Rocco e Seus Irmãos (11) Rogopag (3) Roma Cidade Aberta (28) Rossellini (56) Rosto (4) Sade (3) Salò (11) São Mateus (5) Satyricon de Fellini (4) Scola (14) Seduzida e Abandonada (2) Silvana Mangano (19) Stefania Sandrelli (2) Stromboli (11) televisão (4) Teorema (15) Terrorismo (8) Tornatore (9) Três Homens em Conflito (2) Trilogia da Incomunicabilidade (11) Trilogia da Salvação (2) Trilogia da Solidão (2) Trilogia da Vida (12) Trilogia do Caráter (2) Trilogia do Homem sem Nome (2) Trilogia dos Bichos (1) Trilogia dos Dólares (2) Truffaut (7) Umberto D (5) Verão Violento (5) Viagem à Itália (10) Visconti (48) Vitimas da Tormenta (4) Vitti (4) Wertmüller (5) Zabriskie Point (9) Zavattini (10) Zurlini (13)

Minha lista de blogs

Visitantes

Flag Counter
Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-No Derivative Works 3.0 Brasil License.