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Roberto Acioli de Oliveira

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24 de jul de 2009

As Mulheres de Federico Fellini (VI)


“Para um diretor de cinema, auto-indulgência é uma armadilha difícil de evitar. A ordem de Faulkner para ‘matar seus favoritos’ é um conselho honesto, e grandes artistas como [Ingmar] Bergman e [Akira] Kurosawa levaram isso à perfeição. Entretanto, matar meus favoritos pode apenas significar desastre para
alguém como eu”


Comentário de Fellini em
I’m A Born Liar, A Fellini Lexicon, p. 86

O Homem, a Mulher e o Medo do Labirinto (do Desconhecido)


Qual será a serventia das mulheres afinal, se não for para procriação ou para o sexo? Segundo algumas abordagens supostamente religiosas, a mulher só existe para servir ao homem. Deve estar sempre pronta para trabalhar pesado para ele. Também deve estar sempre pronta a servi-lo sexualmente – ou tolerar que ele o faça fora do relacionamento ou casamento. Portanto, nenhum problema expor a mulher como objeto sexual nas bancas de jornal, pois seria uma de suas funções. (imagem acima, Julieta dos Espíritos, 1965; ao lado, Cidade das Mulheres; abaixo, um delirante e feliz encontro entre a amante e a esposa em 8 1/2 )

Em Fellini 8 ½ (Otto e Mezzo, 1963), no harém do protagonista masculino, de todas as mulheres da vida dele, é da esposa o trabalho mais pesado de alimentar a todos e lavar o chão – e fazer tudo isso se achando a mulher mais feliz do mundo (imagem abaixo, à direita). Em Cidade das Mulheres (Città Delle Donne, 1980), o protagonista masculino vai para debaixo da cama procurar algo e acaba encontrando um buraco que se transforma num tobogã. Na descida ele vai revendo as mulheres de sua vida. Ao final da viagem, caia direto numa jaula que irá levá-lo perante um tribunal de mulheres.

Neste filme Fellini mostra a viagem no universo feminino feita por um homem italiano, meio machão, meio fascinado e meio amedrontado por mulheres. Perguntado se a mulher feliniana é uma projeção de si mesmo, Fellini diz que não quer admitir, mas completa bradando: “Madame Bovary sou eu”. De acordo com Fellini: “A mim parece, citando Jung, que o homem projeta na mulher seu lado obscuro, com isso tornando-a uma criatura fascinante. A mulher é o planeta desconhecido, a parte com a qual o macho deseja se unir visando atingir uma completude, uma esfericidade, uma integridade; e pela mesma razão, é seu lado negro que o atrai e também o intimida” (1)

Na opinião de Fellini não é suficiente lembrar, por exemplo, das deusas presentes na mitologia da Grécia antiga. Não bastaria lembrar de Minerva (a deusa intelectual), Diana (caçadora e guerreira, que encarna a natureza agressiva e competitiva da mulher), ou ainda Vênus, deusa do amor e da arte. Segundo o cineasta italiano, seria preciso, antes de qualquer coisa, lembrar o que os poetas gregos que escreveram e descreveram essas mitologias faziam antes de sentar para escrever. Eles dirigiam uma prece à suas musas para que os nutrisse com inspiração e força nas lutas de cada um com sua imaginação. Nesse sentido, afirmou o cineasta, a mulher sempre teria sido a fonte da criatividade masculina (2).

Não parece que se trate de dizer coisas que agradem aos ouvidos femininos. Não é uma questão de elogiar para seduzir. Fellini admite não compreender as mulheres, não que haja algum problema com elas. Em sua opinião, a diferença entre os sexos não é a questão, sempre foi difícil saber para onde olhar ou o que ouvir quando se deseja realmente compreender as pessoas. Essa dificuldade pode causar ansiedade e medo em alguns homens. Mas espere aí, Fellini dispara contra os homens: “um homem sem medo é um idiota, um robô”. (imagens acima e abaixo, Julieta dos Espíritos)

O cineasta não sente medo daquilo que não compreende – no caso as mulheres. Explica que as palavras certas para sua atitude seriam curioso, fascinado e encantado pelas mulheres. Os homens, afirma Fellini, não deveriam temer essa ansiedade pelo desconhecido (no caso as mulheres), pois é justamente ela que dá a eles o sentido mais profundo da vida. O medo pode ser um sentimento bom, é uma emoção intrínseca à humanidade. Segundo a experiência de Fellini, é a atitude que as mulheres sugerem aos homens que causa a confusão – mais do que o medo que os homens possam ter do desconhecido. A questão é Fellini quem levanta: os homens se projetam nas mulheres e elas se projetam nos homens, como então se pode pretender compreender o outro sexo?

“Eu penso que [nós homens] projetamos nas mulheres um sentimento de espera, algo semelhante a uma revelação, a chegada de uma mensagem, um pouco como o personagem de Kafka que esperou em vão pela palavra do Imperador. Uma mulher é como uma Imperatriz que enviou – quem sabe a quantos milhões de anos atrás – uma mensagem que ainda não nos alcançou. Mas esse é um acontecimento feliz, porque o gosto pela vida está em esperar pela mensagem e não na mensagem em si” (3)

Notas:

1. PETTIGREW, Damian. I’m A Born Liar. A Fellini Lexicon. New York: Harry Abrams Inc., 2003. P.42.
2. Idem, p. 164.
3. Ibidem.

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