aquele que olha (seja fotógrafo
ou repórter). É perigoso, já que ao observar, ao olhar mais tempo que
o necessário (…), desequilibra-se a ordem estabelecida, uma vez que normalmente o tempo exato
de uma olhada é algo ditado
pela sociedade”
Roland Barthes
o necessário (…), desequilibra-se a ordem estabelecida, uma vez que normalmente o tempo exato
de uma olhada é algo ditado
pela sociedade”
Roland Barthes
Sabe aquele filme? É, aquele em que um grupo de pessoas joga tênis utilizando uma bola imaginária! (imagem acima) Sim, foi a única vez que Jeff Beck e Jimmy Page, famosos descompensados e guitarristas, apareceram juntos na mesma banda, os Yardbirds. Sim, temos sexo casual. Sim, temos drogados o tempo todo. E sim, também temos a sensação equivocada de que em Londres (ou no Rio de Janeiro) tudo isso é só alegria de viver e não têm relação nenhuma com guerras de traficantes nos morros cariocas. Sim, temos sexo, drogas e rock’n’roll. Mas não é só isso!
Antonioni se fascinava com o fato de Cortazar haver empregado a ampliação fotográfica para averiguar a realidade. Estes os elementos do conto que Antonioni utiliza em seu filme: 1] descobrir através da fotografia; 2] a ilusão de poder evitar um crime e; 3] o impacto psicológico de dar-se conta de suposições errôneas.
Acredita que conseguiu evitar um assassinato. Volta ao parque e descobre um cadáver, mas percebe que se esqueceu de levar sua câmera fotográfica, o impedindo de registrar o fato. No dia seguinte, volta ao local e descobre que o cadáver havia desaparecido.
“A expressão do rosto de Thomas no final, quando se dá conta de que assiste a uma partida de tênis onde se joga sem bola, supõe uma conclusão em si mesma. Não obstante, o significado daquilo que pensa o protagonista é ambíguo e pode dar lugar a interpretações subjetivas. Algumas propostas são as seguintes: a arte, como forma de jogo, é ilusória; a vida é ilusória; os objetos visíveis não são suscetíveis de serem inspecionados à fundo (uma fotografia se decompõe em manchas sem sentido quando muito ampliada); um homem como Thomas (como todo artista?) deve ‘libertar-se do narcisismo[…] e admitir sem reservas que a realidade se constrói inconscientemente e se constrói socialmente’ “ (2)
Assim como A Aventura, Depois Daquele Beijo é uma estória de mistério sem resolução. A diferença no segundo caso é que o próprio protagonista desaparece no ar, na medida em que surgem na tela as palavras The End. Este desaparecimento simboliza uma parte importante da problemática do filme: a natureza problemática da ilusão, e da ilusão artística em particular. Outra questão que o filme levanta e articula a esta é a incerteza criada pela tecnologia. Ampliando suas fotografias, um fotógrafo pode ver mais do que se veria a olho nu. Thomas acredita retratar a vida cotidiana de Londres, porém, ao se converter em detetive, percebe como as coisas se distorcem a ponto de sua obra desaparecer. As ampliações acabam por transformar as imagens da realidade em puras abstrações. A realidade objetiva se perde e os simulacros tomam conta do mundo: a fronteira entre imagem, ilusão e realidade se esfuma. Antonioni disse que o desaparecimento de Thomas no final é seu autógrafo de cineasta. “Antonioni parece admitir que o destino de um cineasta seja o mesmo, e que também seu filme, o resultado de seu trabalho, acabará por desaparecer com o tempo”(3).
Ron, o amigo que Thomas procurava para contar sua estranha relação com aquelas fotografias do parque, está na mesma festa; mas está drogado demais para compreender aquilo que Thomas procura explicar. As drogas estão nesta trama oferecendo distração, ajudando a “viajar”.
“O exemplo mais representativo desta incapacidade para enfrentar os problemas é a conversa volúvel entre Thomas e Patrícia, esposa do pintor [vizinhos do fotógrafo]. As respostas às perguntas mútuas são incongruentes; cada um deles procura solucionar um problema determinado mas é incapaz de prestar suficiente atenção. Thomas quer saber o que fazer em relação ao cadáver assassinado, enquanto Patrícia quer que Thomas ajude, embora não consiga explicar sua situação nem dizer-lhe como deve atuar, se falam sem obter resposta um do outro. Ela pergunta a ele se não deveria chamar a polícia; ele não responde. Ele pergunta a ela porque não deixa Bill; ela não responde” (4)
Considerava que a linguagem da imagem não tem nenhuma necessidade de misturar-se com música de fundo. Antonioni trabalha mais com os ruídos do mundo como, por exemplo, o som das folhas das árvores do parque. Comenta-se inclusive que a grama do parque foi pintada de verde com o objetivo de realçar relações entre cor e luminosidade.
Notas:
Leia também:
Blow-Up: Antonioni e a Ficção da Vida Real
Arte do Corpo: Veruschka e a Pele Nua
Yasuzo Masumura e os Olhos nos Dedos
Isto é Hollywood!
As Mulheres de Ingmar Bergman (I)
Buñuel e as Formigas
O Que Sobrou da Nouvelle Vague?
O Desespero de Fassbinder
Antonioni e a Trilogia da Incomunicabilidade (IV), (V)
Ingmar Bergman e a Trilogia do Silêncio
1. CHATMAN, Seymour; DUNCAN, Paul (ed.). Michelangelo Antonioni. Filmografía Completa. Köln: Taschen, 2004. P. 100.
2. Idem, p. 103. A citação interna é de Peter Brunette em The Films of Michelangelo Antonioni: New York, 1998. P. 117.
3. Ibidem, p. 111.
4. Ibidem, p. 112.
Buñuel e as Formigas
O Que Sobrou da Nouvelle Vague?
O Desespero de Fassbinder
Antonioni e a Trilogia da Incomunicabilidade (IV), (V)
Ingmar Bergman e a Trilogia do Silêncio
1. CHATMAN, Seymour; DUNCAN, Paul (ed.). Michelangelo Antonioni. Filmografía Completa. Köln: Taschen, 2004. P. 100.
2. Idem, p. 103. A citação interna é de Peter Brunette em The Films of Michelangelo Antonioni: New York, 1998. P. 117.
3. Ibidem, p. 111.
4. Ibidem, p. 112.