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Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

4 de mar de 2010

A Itália em Busca do Realismo Perdido (I)



"O cinema será
sempre a última
das
preocupações
de um governo
,
seja qual for"

François Truffaut
cineasta francês


Mussolini e a Cidade do Cinema


A indústria cinematográfica italiana está profundamente ligada ao ditador fascista Mussolini. Cinecittá, a cidade cinematográfica, a cidade do cinema, teve sua pedra fundamental colocada por Mussolini em 27 de janeiro de 1936 e foi construída em 475 dias. Em 27 de abril de 1937, o mesmo Mussolini comparece à inauguração daquela que nasceu como o sonho de uma Hollywood fascista. O ditador também havia criado uma escola de cinema considerada inovadora, Centro Sperimentale di Cinematografia. Embora seu interesse fossem os filmes de entretenimento, evitando os filmes de propaganda do Regime, também houve produções enfocando o realismo social (imagem acima, contrariando a frase de Truffaut, o slogan fascista, "o cinema é a arma mais forte", dá uma dimensão do interesse de Mussolini num cinema a favor do Regime; a não ser que, naturalmente, se compreenda a frase de Truffaut como um alerta: utilizar o cinema com fins partidários é negá-lo. Por outro lado, também devemos incluir nesta possibilidade o cinema do realismo socialista - o que, ao fim e ao cabo, pode acabar incluíndo o próprio Neo-Realismo que o cineasta francês enaltecia na figura de Roberto Rossellini). O jornalista italiano Leo Longanesi escreveu um artigo em 1933 que é muito próximo dos manifestos neo-realistas de Cesare Zavattini escritos no pós-guerra:

“Deveríamos fazer filmes que sejam extremamente simples e econômicos na encenação sem utilizar cenários artificiais – filmes que sejam feitos tanto quanto possível a partir da realidade. De fato, realismo é precisamente o que está faltando em nossos filmes. É preciso ir direto para as ruas, levar a câmera para as ruas, os quintais, as barracas, e as estações de trem. Para fazer um filme italiano natural e lógico, deveria ser suficiente sair para as ruas, parar em qualquer lugar e observar o que acontece durante meia hora com olhos atentos e sem preconceitos a respeito de estilo”. (1)

Vittorio, filho do ditador, acreditava que o modelo hollywoodiano era aquele que deveria ser seguido. Ele não só visitou Hollywood em 1936 como desejava fundar uma produtora italo-americana de filmes. Vittorio era um dos mais envolvidos no processo e chegou a dirigir um filme – de fato era produtor, roteirista, supervisor e distribuidor de filmes, assim como diretor de uma revista sobre cinema. Outro filho do ditador, Bruno Mussolini, foi também roteirista. Clara Pettati, a amante de Mussolini, tinha uma irmã que estrelava filmes distribuídos por Vittorio (2). (imagem abaixo, cena de Amarcord, direção Federico Fellini, 1973)


“Mussolini está
sempre certo”


Slogan
atribuído
a Leo Longanesi, jornalista
contemporâneo do ditador



Antes que fosse bombardeada pelos aliados em janeiro de 1944, Cinecittá havia produzido 279 filmes, entre abril de 1937 e julho de 1943. Destes, 120 são comédias, 17 de guerra ou de propaganda, 142 são de gêneros variados (ópera lírica, filme histórico, “policiais”). Noa Steimatsky faz uma pequena resalva neste ponto. Quando entraram em Roma, as tropas aliadas requisitam Cineccittà para ser usada como campo para refugiados. em sua opinião tal procedimento também visava a neutralização da retormada da produção cinematográfica italiana. Houve uma imediata inundação de filmes norte-americanos que não haviam sido distribuidos durante a guerra na Europa (3). Em novembro de 1944, Alberto Lattuada conclui um trabalho que viria a ser o primeiro filme italiano iniciado após a rendição das forças militares sob o comando de Mussolini (4).

O famoso diretor neo-realista Roberto Rossellini manteve contatos muito produtivos com figuras do regime fascista. Em 1938, Rossellini vai à Etiópia, então uma colônia italiana, na qualidade de diretor da segunda unidade, para participar na produção de um documentário controlado por Vittorio. Em 1941, Rossellini realiza La Nave Bianca, filmado num navio de guerra com a participação de marinheiros, oficiais e enfermeiros. Vittorio Mussolini o tinha em alta conta, convidando-o em 1942 para transformar mais um de seus argumentos em filme. Un Pilota Rittorna era o nome do filme, que contava com a participação de militares da aviação italiana. Rossellini foi auxiliado por Michelangelo Antonioni no roteiro. Em 1942-3, realiza L’Uomo dalla Croce, mais um filme com cenário bélico e assessoria militar. Este três filmes compõem o que ficou conhecido na filmografia do cineasta como a Trilogia da Guerra Fascista (5).

Em 1944, Rossellini torna-se representante democrata-cristão do setor dos trabalhadores do cinema, no Comitê Nacional de Libertação. Em 1945, dirige Roma, Cidade Aberta (Roma Città Aperta), com a colaboração de Federico Fellini no roteiro e assistência de direção - de então até o final da década, a produção cresceu novamente apesar dos esforços em contrário de outras forças, como observou Steimatsky. “O crítico Oreste del Buono, ao retraçar o panorama de surgimento de Roma, Cidade Aberta, afirma: ‘Não há o que negar: também no campo cinematográfico a cultura italiana demonstrava sua absoluta continuidade. O novo cinema nascia da confluência, num só lance, do velho cinema, do cinema de propaganda heróica fascista, e do cinema cômico popularesco, senão francamente dialetal’ “ (6).

Notas:

1. BONDANELLA, Peter. The Films of Federico Fellini. UK: Cambridge University Press, 2002. P. 168, nota.1.
2. MARTINS, Luiz Renato. Conflito e Interpretação em Fellini: Construção da Perspectiva do Público. São Paulo: Edusp/Instituto Italiano di Cultura, 1993. Pp. 68-9, n.35.
3. STEIMATSKY, Noa. Italian Locations. Reinhabiting the Past in Post War Cinema. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2008. Pp. xiii e 176-7 n9.
4. MARTINS, Luis Renato. Op. Cit., idem. A origem dos dados é “Cronologia”, de Mario Lombardo, citado no livro de
Fellini,
Un Regista a Cinecittà (1988).
5. BEN-GHIAT, Ruth. The Facist War Trilogy In FORGACS, David; LUTTON, Sarah; NOWELL-SMITH, Geoffrey. Roberto Rossellini, Magician of the Real. London: British Film Institute, 2000. Pp. 20-35.
6. MARTINS, Luiz Renato. Op. Cit., pp. 69-70, n.36.

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