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Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

7 de mar de 2010

A Itália em Busca do Realismo Perdido (II)



O Neo-Realismo surge
pouco antes do final da
Segunda Guerra Mundial
e sua temática gira em
torno de uma unidade
nacional antifascista


Elementos Nacionalistas no Neo-Realismo Italiano

Após o conturbado reinado de Mussolini e a destruição do país na Segunda Guerra Mundial, a Itália vivia um momento de tomada de consciência das massas. Era preciso registrar o presente – especificamente a guerra e a luta pela libertação – e reviver um “espírito de coletividade” no povo italiano. Esse papel de cronistas será desempenhado principalmente pelos cineastas. Surgido logo após a libertação da cidade, Roma, Cidade Aberta (Roma, Città, Aperta, 1945) foi o marco inicial do neo-realismo (1). Nos primeiros tempos do movimento, era exaltado o papel da Resistência antifascista. (imagem acima, cena de Paisà; abaixo, à direta, Rocco e Seus Irmãos)

Sem questionar seu
papel e suas contradições internas, o Neo-Realismo degenera em estereótipo
e romantismo




Em Paisà (1946), Rossellini partiu do encontro de italianos com os soldados norte-americanos para fazer uma apologia da solidariedade entre os homens na luta pela liberdade. Alternando episódios de guerra e após-guerra, já se apresentavam os problemas sociais derivados do conflito armado: “O presente já começava a ser também o hoje e não somente o passado recente” (2). O problema do subdesenvolvimento da região sul da Itália, a reforma agrária, o desemprego e o subemprego nas áreas urbanas, a emigração; esses eram os temas que ocupariam o neo-realismo então. Filmes como Rocco e Seus Irmãos (Rocco e i Suoi Fratelli, 1960), dirigido por Luchino Visconti, e Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette, 1948), dirigido por Vittorio De Sica, são os exemplos mais famosos tratando da emigração sul-norte em busca de emprego e da falta de emprego para aqueles que já estão na cidade. Visconti havia esboçado um desejo, que não se confirmou, de que o neo-realismo fizesse a passagem da crônica à história. Foi justamente a incapacidade de analisar as contradições internas da Resistência contra o nazi-fascismo o responsável por esta incapacidade (3).



A classe média
italiana se assusta com
a hipótese de um povão consciente



O Neo-Realismo acabou servindo tanto para mostrar a Itália e os italianos a si mesmos quanto para fazer a crônica desta fase da sociedade italiana. Fase esta que dita os caminhos da Itália até hoje, pois a política atual sempre irá espelhar-se naquilo que fez ou deixou de fazer nos tempos em que acabou por permitir a ascensão do fascismo. Esta tomada de consciência da população acabou alarmando a classe média italiana no imediato pós-guerra. Particularmente a classe média do sul não industrializado, que dava muito valor à “ordem social”. Em 1945, Guglielmo Giannini funda o movimento L’Uomo Qualunque. Inspirado nos interesses do homem comum, a atitude de Gianini demonstra como os princípios do fascismo ainda estavam arraigados. Enraizado também havia um profundo anti-socialismo, proveniente das camadas médias moderadas e sua consequente insatisfação com a incapacidade dos conservadores da Democracia Cristã em afastar do governo os comunistas e socialistas (4).


Como em muitos
lugares
, o governo
dá com uma mão
e tira com a outra




O Neo-Realismo não ficou imune a essa caça as bruxas que se fazia sentir no interior do frágil governo italiano, o qual se limitava em adequar as necessidades éticas e estéticas da sociedade italiana à polarização da Guerra Fria entre Estados Unidos e a ex-União Soviética. No imediato pós-guerra, o cinema norte-americano invadia a Itália. Em março de 1949, os cineastas italianos fizeram uma grande manifestação para pressionar o governo, cujas medidas não favoreciam a produção nacional. Alegando que “roupa suja se lava em casa”, o governo negava visto de exportação para filmes como Ladrões de Bicicleta. (imagem acima, à esquerda, tanque alemão passa pelo Coliseu em Roma, Paisà; acima, uma bicicleta prestes a ser roubada em Ladrões de Bicicleta; abaixo, outra imagem de Paisà, agora é um tanque norte-americano que passa diante do Castelo Sant'Angelo, em Roma)

“Nos anos 50, a censura,
secundada pela Democracia-Cristã e pelo
Vaticano, será a grande inimiga do cinema italiano engajado” (5)



Entre os cineastas italianos do após-guerra, Giuseppe De Santis foi um destes diretores neo-realistas italianos que desejava mostrar a realidade de seu povo que o fascismo tinha censurado. Mostrar os explorados através de uma “épica nacional das camadas populares”, desenvolvendo um discurso que as via ao mesmo tempo como protagonistas e como espectadoras (6). Entretanto, De Santis não renunciava ao “cinema de autor”. Seus filmes também refletem sobre a cultura de massa, buscando uma “ética dos meios de comunicação de massa”. Era um militante de esquerda, o que não o impediu de sentir-se atraído pela capacidade (e não pela ideologia) do cinema hollywoodiano de produzir entretenimento. Os filmes de De Santis procuravam mostrar uma cultura ainda tradicional que se defrontava com o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa. O Neo-Realismo nunca foi um movimento homogêneo, suas motivações reuniram muitos grupos ideológicos (o que resultava em motivações ambíguas) em torno de objetivos comuns que poderiam ser resumidos pela intenção de levar o público a refletir sobre as relações entre o homem e a sociedade.

“E se, em virtude dessa ambigüidade ideológica, a luta da Resistência italiana não pode ser considerada uma revolução cujos ideais foram traídos, pois, como afirma Guido Guazza, ‘não pode ser revolução fracassada o que nunca foi revolução’, então o neo-realismo também, como observou Renzo Renzi, não foi revolucionário; seus adversários é que foram reacionários” (...) “As forças conservadoras, uma vez restauradas no poder, não queriam ser questionadas e, para afastar das telas aqueles filmes em que o povo era apresentado como protagonista da história, servir-se-ão da importação maciça de filmes norte-americanos, da ação repressora da censura e, entre outros gêneros, dos dramas lacrimejantes, dos filmes históricos, das comédias de costumes e das farsas, permitindo, dessa forma, que fosse reatado o discurso com o cinema dos anos 30” (7)

Notas:

Se possui outra opinião quanto ao
marco inicial do Neo-Realismo, leia:
A Obsessão de Visconti

Leia também:

Fellini e a Orquestra Itália

A Itália em Busca do Realismo Perdido (I)

1. FABRIS, Mariarosaria. O Neo-Realismo Cinematográfico Italiano. São Paulo: Edusp, 1996. P. 37.
2. Idem, p. 46.
3. Ibidem, p. 41.
4. Ibidem, pp. 49-50, n 12.
5. Ibidem, p. 157, n 38.
6. Ibidem, p. 151, n3.
7. Ibidem, p. 148.

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